Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Opinião: Luis Fernando Veríssimo sobre o dantesco BBB

Partilho com os leitores a análise que o escritor e cronista Luis Fernando Veríssimo fez sobre o Big Brother Brasil (vulgo BBB) exibido pela Rede Globo.
Este programa já ultrapassou todos os limites do bom senso e da decência. Infelizmente muitas pessoas não percebem o quanto este atrativo é de mau gosto e menospreza a inteligência dos telespectadores, com exibição de vulgaridades e baixarias. Tomara que o povo brasileiro acorde e proteste contra esse tipo de entretenimento abjeto não dando audiência.


Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. A nova edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência. Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo.

Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros...todos na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterossexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE.

Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB . Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis? Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores) , carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados.

Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo dia.

Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna. Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, Ongs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).

Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$$$$$$$$$ $$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.

Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores).

Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema...., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , ·visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade.


Publicado no Blog do Portuga:
http://brunojpteixeira.blogspot.com/2012/01/visao-de-verissimo-sobre-o-bbb-tv-globo.html

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Tempo de renovação


O que falar a respeito de 2012? Não se trata dos cordiais e otimistas cumprimentos festivos ofertados entre amigos e parentes, tampouco de verbalizar previsões como um advinho. O ano nascente oferece a todos a oportunidade única de renovar os sentimentos, pensamentos e relações mais benfazejas e nobres que se deram ao longo do ano findado. Mais ainda, a de refazer os humores e planos fracassados, de recompor as decepções e retomar bons propósitos não efetivados, ou cumpridos parcialmente.

Renovar-se é uma atitude necessária a todo ser vivo, e isso é facilmente comprovado pela simples observação empírica da natureza: as plantas de qualquer espécie são transformadas de acordo com as estações e os fenômenos físicos e químicos pelos quais são sucessíveis; animais, em toda a extensão de gênero, se modificam e se adaptam conforme os elementos naturais com os quais interagem; o próprio dado fundamental do universo parece ser o eterno suceder de estados móveis, com mutações constantes e perenes.

Quanto ao ser humano, a renovação não se dá simplesmente como recuperação das forças, mas, mediante a revisitação da experiência vivida, assumir para a nova etapa vital uma postura altiva e esclarecida, preparada para enfrentar as peripécias com maturidade e equilíbrio. A grande novidade anual está em aguçar a percepção de si próprio – o autoconhecimento – em decorrência das vicissitudes que o tempo e as circunstâncias ofereceram e consolidar entre tais instabilidades um traslado seguro, sem macular a personalidade, nem querer “obrigar” a realidade a se enquadrar nos critérios e vontades pessoais. A liberdade de se fazer é plena quando associada às condições objetivas pelas quais é viável criar o possível.

O tempo atual favorece o estabelecimento de um projeto de vida audacioso e benéfico em todos os níveis de existência (indivíduo, família, sociedade), e o compromisso diário com a harmonia interior (psíquica, física, emocional) e com o exercício de ações viabilizadoras desse estado saudável são certamente os primeiros passos na realização de um ano formidável.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Por que ir ao Teatro

Publicado na Revista Pietá, edição de janeiro de 2012


Falar da importância de frequentar o teatro para mim é algo muito cômodo, já que realizei por mais de dez anos espetáculos teatrais. Mas quando me vejo na tarefa de convencer alguém, sem a mesma trajetória e envolvimento afetivo e prático com a arte da cena, a ter o mesmo apreço pessoal pelo teatro, a questão deixa de ser tão simples e ganha proporção de acentuada seriedade.

As pessoas têm as mais distintas ideias sobre o teatro. De manifestação divina a reduto de vagabundos e transviados, de ofício elitista a aparato didático, o teatro sempre despertou fascínio e aversão, e foi e é considerado por alguns como profissão para privilegiados e talentosos por natureza ou mesmo tomado como ambiente de loucuras e imoralidades. Fato é que nenhuma dessas perspectivas, embora permeiem o universo mítico e os caminhos fatuais do fenômeno teatral, não são em hipótese alguma referências verdadeiras do que é essa manifestação artística. Num primeiro momento, é prudente afastar da mente toda série de imaginações sem fundamento para então se colocar na busca da compreensão exata.

O teatro visa mostrar através de recursos técnicos e atuações humanas um modo de ser possível. A palavra theatron, originária do grego, significa “lugar de onde se vê”, palavra que já sinaliza os pontos fundamentais dessa arte: o encontro das pessoas em um edifício ou espaço (“lugar”), que possui a função prática e intencional (“de onde”) de acolher pessoas para assistirem algo (“se vê”). Mais ver o quê? Trata-se, evidente, de uma criação estética, ou seja, a produção de uma obra concreta e manipulável, não redutível a uma imitação grosseira dos fatos reais, o que não invalida sob nenhuma hipótese uma perspectiva de “retrato” da vida. Algumas criações inclusive exageram no objetivo de fidelidade aos acontecimentos cotidianos, enquanto outras caminham pelas trilhas do sonho e do universo interior. Os atores, principais agentes do teatro, são preparados com qualificações que permitem a reprodução, dia após dia de exibição pública, das mesmas cenas com igual proporção de intensidade, emoção e vibração.

Vale a pena endossar o dito no parágrafo anterior com o dizer do ator Fernando Peixoto, no livro O que é Teatro de sua autoria: “Um espaço, um homem que ocupa este espaço, outro homem que o observa. Entre ambos, a consciência de uma cumplicidade, que os instantes seguintes poderão até atenuar, fazer esquecer, talvez acentuar: o primeiro, sozinho ou acompanhado, mostra um personagem e um comportamento deste personagem numa determinada situação, através de palavras ou gestos, talvez através da imobilidade e do silêncio, enquanto que o segundo, sozinho ou acompanhado, sabe que tem diante de si uma reprodução, falsa ou fiel, improvisada ou previamente ensaiada, de acontecimentos que imitam ou reconstituem imagens da fantasia ou da realidade.” A magia do teatro se dá exatamente no contrato simbólico estabelecido no momento do espetáculo entre o espectador e o artista, cuja cláusula máxima é a troca ininterrupta de imaginações, sensações e pensamentos, tudo relativo ao mundo humano. O teatro sempre teve o poder de consolar as emoções inevitáveis e abalar as estruturas do entendimento e das crenças simplórias, gerando nas pessoas de coração atento e alma disponível o privilégio de viverem novas experiências e refletirem sobre suas vidas com profundidade.

O teatro é um convite ao aguçamento da percepção, da sensibilidade e da autoconsciência. Ir ao teatro não se resume ao divertimento ou lazer, mas traz a oportunidade de ver a humanidade naquilo que ela tem de admirável e perverso, de santo e pecaminoso, e repensar a conduta diante de tantas contradições. O teatro nos chama: vamos atender ao seu apelo!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Crítica Teatral

TEMPO, EXISTÊNCIA, MEMÓRIA... PUERIL


Surge o Coletivo Nonada! O nome inspirado em Guimarães Rosa – “Nonada” é a palavra de abertura de Grande Sertão: Veredas – apresenta o cerne da proposta de pesquisa dessa grata aparição teatral em solo sorocabano. Os atores Robson Roso (também diretor), Fabiana Souza, Douglas Emilio e Daiana de Moura compõem o elenco do primeiro espetáculo deste grupo, Pueril, resultado do projeto Tempus Fugit desenvolvido pelos atores, uma equipe especial de colaboradores (dentre os quais Egla Monteiro, Melany Kern, Raquel Ornellas, Júlio Moura e Rodrigo Cavalheiro) e com o fomento da Lei de Incentivo à Cultura de Sorocaba.

A encenação constrói-se sobre o entrecruzamento de quatro personagens, com identidades bastante singulares, que se descobrem e traçam juntos a sua história (ou histórias?) entre dores e amores, presenças e ausências. No labirinto de emoções e fantasias ingênuas, os fatos se dão a conhecer menos pela sua historicidade do que pelo universo subjetivo das personagens, numa austera procura de si mesmos e das faces ocultas de suas trajetórias. Tais forças são expostas em cenas não contínuas, emaranhadas sem condicionamento seqüencial, marcadas por diálogos e pequenos solos preenchidos sempre por muito lirismo. É bom constatar que o texto foi elaborado coletivamente no decorrer do processo, não havendo escritos dramáticos prévios.

Pueril, antes de qualquer coisa, reflete cenicamente a busca do próprio coletivo: são os quatro atores que, se encontrando sob as bênçãos dionisíacas na messe da amizade, trazem das entranhas de suas experiências pessoais e artísticas a seiva para compor tão esbelta e promissora obra cênica. Desde cedo se presume, com inigualável clareza (até pelo programa entregue ao público) a relevância intra-dramática da experiência do memorial histórico dos intérpretes, posto nas cenas em simbiose com os caracteres das personagens criadas. Aliás, seria redundante afirmar (como Stanislavski já o fez) que o trabalho do ator, aquém das metodologias do fazer teatral, se ancora definitivamente nos atributos, pensamentos e emoções do homem e mulher que se oferecem para atuar, pois suas criações resvalam consecutivamente na síntese pessoal emanada das vísceras de seu progenitor. O grupo não apenas quis produzir um espetáculo teatral, mas selou um compromisso com a memória, preservador e articulista do conteúdo passado na vivacidade do presente, e se oferece como dados imediatos de experiência pessoais e sociais a compor o painel referencial pelo qual se arrolará o futuro.

A meu ver, a encenação trata exclusivamente sobre o tempo e tudo que o circunda, incluindo o fenômeno humano. Tempo pensado nos múltiplos aspectos pelos quais este se torna completamente apreendido cognitivamente, ou ao menos significado. Mas não se restringe ao tempo somente como leitmotiv narrativo, e sim o tempo como propulsor de uma investigação artística. Com isso não descarto a preocupação com o espaço, salientada em prólogo pelo coletivo, mas julgo que mesmo a concepção espacial empregada é erigida tendo por princípio a forma temporal segundo a qual traçaram sua obra colaborativa. Pueril marca o tempo – considerado como passagem contínua e necessária, e propulsor de desdobramentos vitais para os seres sob seu jugo – apresentando pela ação das personagens uma série de elementos, como mala, folhas, fotos; também uma gama de cantigas e brincadeiras remete constantemente à linha temporal, e sua elasticidade imaginária conduz o espectador aos recortes breves e instigantes da existência, tanto as do plano ficcional quanto da realidade. Essa é a vivência mais imediatamente posta aos nossos sentidos: existir é pôr-se de modo consciente em sintonia com o movimento vital dentro do qual somos ou poderemos ser algo - além da facticidade. O cosmos, na sua magnífica auto-renovação cíclica, revela-nos a circularidade da vida, e isso reflete certamente na percepção fundamental dos atos e acontecimentos pelos quais nem precisamos ter vivido diretamente para experimentar sua cor, cheiro, sabor. Pueril oferece ao público uma gama de sensações, acompanhadas pelos lampejos serenos e meditativos das personagens, que conduzem, à maneira de um devotado cicerone, pelas demarcações de memórias autoconscientes, expressivas de nostalgia, placidez, melancolia, afeições portadoras de universalidade. Devido a isso, cada espectador sente-se tocado no seu íntimo, integrando seu “agora” no timing da lembrança, ou fazendo um mergulho emocional por estados oriundos da natureza humana, herdados inconscientemente de gerações expiradas.

A proximidade das ações dramáticas com a vida real não se dá apenas pela verossimilhança dos acontecimentos cênicos em relação ao contexto existencial dos expectadores, mas sobretudo pela concórdia e integração do elenco. Isso não se consegue simplesmente juntando alguns profissionais que seguem a mesma pauta, convivendo por uma obrigação contratual. Os atores são, fora do tablado, amigos, parceiros, confidentes, e essa coexistência (marcada por inúmeros afetos) gera a sintonia intransferível que entra na cena e dá um tom especial ao enredo. Pueril é, nesse sentido, um laboratório de alteridades, um estágio para todo aquele carente de superar o desperdício de viver sem reconhecer o rosto do outro, uma chamada definitiva para abertura da subjetividade laqueada para o múltiplo e a diferença. Robson, Fabiana, Douglas e Daiana convidam seu público a volver o olhar, anestesiado pelo individualismo contemporâneo e cegueira espiritual, a presenciar nas entranhas do coração as razões ocultas da cada identidade, e isso se dará somente em consonância com os coadjuvantes de cada biografia.

A arte tem a virtude de penetrar nos lugares pouco visitados da alma e reencontrar experiências perdidas, ou a muito deixadas de lado. Assistir Pueril é se dar a oportunidade de recordar a singularidade pessoal na multiplicidade humana, recheada por edemas, fissuras, honras e esperança.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Opinião

Lei da Palmada: mais um passo para o estado totalitário


Está em curso, agora para o Senado votar, a famigerada Lei da Palmada, que se trata evidentemente de mais uma interferência arbitrária do Estado na vida familiar do brasileiro.

Apresento este artigo de Percival Puggina, publicado no Diário de Sorocaba no dia 23 de dezembro de 2011. Leiam e reflitam sobre os rumos que o governo e aliados querem dar ao país.


Para saberem quem é que manda

Por Percival Puggina


A Lei da Palmada é produto do politicamente correto, que tem por objetivo submeter liberdade e consenso às rédeas de dissensos minoritários. E é mais uma intromissão do Estado na vida privada. Bastaria isso para determinar sua rejeição. Mas ela passou na Câmara dos Deputados e segue a toque de caixa para o Senado. A pedagogia do politicamente correto está produzindo alunos que batem nos professores, mas está convencida de que falta um pouco mais do mesmo. Vale dizer, ainda menos disciplina para ainda mais porrada e bullying.

Tudo isso é certo e sabido. Mas o que não se diz é que a Lei da Palmada é irmã da Lei do Desarmamento, do PNDH-3, do vestibular do Enem, da Lei de Quotas Raciais, do perfil que deram ao STF, da Lei da Homofobia, do marco regulatório da imprensa e por aí vai. Ou seja, não se diz, ou pouco se diz, que há uma ideologia soprando essa praga sobre as famílias brasileiras, assim como o vento espalha fungos nas lavouras. É a ideologia do totalitarismo, que implica um Estado com o monopólio da força e com amplas funções modeladoras em relação às instituições da sociedade, entre elas a instituição familiar (quando deveriam ser estas a orientar e domar o Estado!). Recentemente, em programa de tevê, uma pedagoga integrante do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente pregava: “O Estado tem o dever de educar a sociedade para novos padrões de conduta”. Ela estava convencida, por essa ideologia maldita, que é obrigação do Estado comandar o leitor destas linhas não apenas sobre coisas como declarar sua renda ou se comportar no trânsito, mas sobre como educar seus filhos. O melhor castigo, dizia um psicólogo que aplaudia a aprovação da lei na Câmara dos Deputados, é substituir uma atividade prazerosa da criança por outra menos prazerosa. Punição, como tal, nunca papai. Nunca mamãe. E depois, bem feito: agüentem os malfeitos que virão.


Os corretos limites do uso da força já estão dados tanto no Código Civil (perdem o pátrio poder os pais que castigarem imoderadamente os filhos), no Código Penal (punições para casos graves de violência contra crianças e adolescentes) e no ECA (idem). Não era necessária qualquer legislação especial. A estratégia adotada para aprovação da lei na Câmara consistiu em levar o debate como se houvesse dois blocos: os contra a palmada e os a favor da palmado. Haverá alguém a favor da palmada? Alguém é a favor da quimioterapia? No entanto, há situações concretas no ambiente familiar que se resolvem com a simples possibilidade da aplicação de uma palmada.

Transformá-la em tema de lei federal, objeto de delação, é completa demasia que nasce, forçosamente, de uma visão totalitária de Estado. Não hesito em afirmar que prejudiciais, mesmo, ao desenvolvimento saudável das crianças, são outras coisas muito freqüentes na sociedade. A saber: 1) a educação permissiva, que não estabelece limites e franqueia acesso aos vícios socialmente tolerados e não tolerados; 2) a indiferença dos pais em relação ao que fazem os filhos e ao seu preparo para a aventura de viver; e 3) a violência verbal, que faz decair o mútuo respeito e a autoridade paterna.

A afirmação de que a palmada introduz a violência na instituição familiar é cristalinamente falsa. A violência entra em casa pela janela, pela porta da rua, pela antena da tevê, pelo bar da esquina e pelo beco onde se aloja o traficante. Ante elas, a eventual palmadinha educativa é o que de fato significa: sinal de amor que educa. Ao contrário do que pensam a deputada federal Maria do Rosário e seus colegas que aprovaram o projeto, essa lei não coibirá a violência contra as crianças. Se os três instrumentos já existentes (Código Civil, Código Penal e ECA) não conseguiram coibir os maus tratos dentro de casa, não contiveram os pais abusadores e violentos, não será uma lei que proíbe a palmada aplicada pelos pais amorosos e responsáveis que vai produzir isso. O que ela fará é ensinar às crianças (até porque prevê aulas de esclarecimento nas escolas) que é o Estado quem manda naquele pedaço que elas chamam de minha casa, meu barraco, meu apê, minha família.