Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







domingo, 22 de janeiro de 2012

Por que ir ao Teatro

Publicado na Revista Pietá, edição de janeiro de 2012


Falar da importância de frequentar o teatro para mim é algo muito cômodo, já que realizei por mais de dez anos espetáculos teatrais. Mas quando me vejo na tarefa de convencer alguém, sem a mesma trajetória e envolvimento afetivo e prático com a arte da cena, a ter o mesmo apreço pessoal pelo teatro, a questão deixa de ser tão simples e ganha proporção de acentuada seriedade.

As pessoas têm as mais distintas ideias sobre o teatro. De manifestação divina a reduto de vagabundos e transviados, de ofício elitista a aparato didático, o teatro sempre despertou fascínio e aversão, e foi e é considerado por alguns como profissão para privilegiados e talentosos por natureza ou mesmo tomado como ambiente de loucuras e imoralidades. Fato é que nenhuma dessas perspectivas, embora permeiem o universo mítico e os caminhos fatuais do fenômeno teatral, não são em hipótese alguma referências verdadeiras do que é essa manifestação artística. Num primeiro momento, é prudente afastar da mente toda série de imaginações sem fundamento para então se colocar na busca da compreensão exata.

O teatro visa mostrar através de recursos técnicos e atuações humanas um modo de ser possível. A palavra theatron, originária do grego, significa “lugar de onde se vê”, palavra que já sinaliza os pontos fundamentais dessa arte: o encontro das pessoas em um edifício ou espaço (“lugar”), que possui a função prática e intencional (“de onde”) de acolher pessoas para assistirem algo (“se vê”). Mais ver o quê? Trata-se, evidente, de uma criação estética, ou seja, a produção de uma obra concreta e manipulável, não redutível a uma imitação grosseira dos fatos reais, o que não invalida sob nenhuma hipótese uma perspectiva de “retrato” da vida. Algumas criações inclusive exageram no objetivo de fidelidade aos acontecimentos cotidianos, enquanto outras caminham pelas trilhas do sonho e do universo interior. Os atores, principais agentes do teatro, são preparados com qualificações que permitem a reprodução, dia após dia de exibição pública, das mesmas cenas com igual proporção de intensidade, emoção e vibração.

Vale a pena endossar o dito no parágrafo anterior com o dizer do ator Fernando Peixoto, no livro O que é Teatro de sua autoria: “Um espaço, um homem que ocupa este espaço, outro homem que o observa. Entre ambos, a consciência de uma cumplicidade, que os instantes seguintes poderão até atenuar, fazer esquecer, talvez acentuar: o primeiro, sozinho ou acompanhado, mostra um personagem e um comportamento deste personagem numa determinada situação, através de palavras ou gestos, talvez através da imobilidade e do silêncio, enquanto que o segundo, sozinho ou acompanhado, sabe que tem diante de si uma reprodução, falsa ou fiel, improvisada ou previamente ensaiada, de acontecimentos que imitam ou reconstituem imagens da fantasia ou da realidade.” A magia do teatro se dá exatamente no contrato simbólico estabelecido no momento do espetáculo entre o espectador e o artista, cuja cláusula máxima é a troca ininterrupta de imaginações, sensações e pensamentos, tudo relativo ao mundo humano. O teatro sempre teve o poder de consolar as emoções inevitáveis e abalar as estruturas do entendimento e das crenças simplórias, gerando nas pessoas de coração atento e alma disponível o privilégio de viverem novas experiências e refletirem sobre suas vidas com profundidade.

O teatro é um convite ao aguçamento da percepção, da sensibilidade e da autoconsciência. Ir ao teatro não se resume ao divertimento ou lazer, mas traz a oportunidade de ver a humanidade naquilo que ela tem de admirável e perverso, de santo e pecaminoso, e repensar a conduta diante de tantas contradições. O teatro nos chama: vamos atender ao seu apelo!

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