Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Crítica Teatral

TEMPO, EXISTÊNCIA, MEMÓRIA... PUERIL


Surge o Coletivo Nonada! O nome inspirado em Guimarães Rosa – “Nonada” é a palavra de abertura de Grande Sertão: Veredas – apresenta o cerne da proposta de pesquisa dessa grata aparição teatral em solo sorocabano. Os atores Robson Roso (também diretor), Fabiana Souza, Douglas Emilio e Daiana de Moura compõem o elenco do primeiro espetáculo deste grupo, Pueril, resultado do projeto Tempus Fugit desenvolvido pelos atores, uma equipe especial de colaboradores (dentre os quais Egla Monteiro, Melany Kern, Raquel Ornellas, Júlio Moura e Rodrigo Cavalheiro) e com o fomento da Lei de Incentivo à Cultura de Sorocaba.

A encenação constrói-se sobre o entrecruzamento de quatro personagens, com identidades bastante singulares, que se descobrem e traçam juntos a sua história (ou histórias?) entre dores e amores, presenças e ausências. No labirinto de emoções e fantasias ingênuas, os fatos se dão a conhecer menos pela sua historicidade do que pelo universo subjetivo das personagens, numa austera procura de si mesmos e das faces ocultas de suas trajetórias. Tais forças são expostas em cenas não contínuas, emaranhadas sem condicionamento seqüencial, marcadas por diálogos e pequenos solos preenchidos sempre por muito lirismo. É bom constatar que o texto foi elaborado coletivamente no decorrer do processo, não havendo escritos dramáticos prévios.

Pueril, antes de qualquer coisa, reflete cenicamente a busca do próprio coletivo: são os quatro atores que, se encontrando sob as bênçãos dionisíacas na messe da amizade, trazem das entranhas de suas experiências pessoais e artísticas a seiva para compor tão esbelta e promissora obra cênica. Desde cedo se presume, com inigualável clareza (até pelo programa entregue ao público) a relevância intra-dramática da experiência do memorial histórico dos intérpretes, posto nas cenas em simbiose com os caracteres das personagens criadas. Aliás, seria redundante afirmar (como Stanislavski já o fez) que o trabalho do ator, aquém das metodologias do fazer teatral, se ancora definitivamente nos atributos, pensamentos e emoções do homem e mulher que se oferecem para atuar, pois suas criações resvalam consecutivamente na síntese pessoal emanada das vísceras de seu progenitor. O grupo não apenas quis produzir um espetáculo teatral, mas selou um compromisso com a memória, preservador e articulista do conteúdo passado na vivacidade do presente, e se oferece como dados imediatos de experiência pessoais e sociais a compor o painel referencial pelo qual se arrolará o futuro.

A meu ver, a encenação trata exclusivamente sobre o tempo e tudo que o circunda, incluindo o fenômeno humano. Tempo pensado nos múltiplos aspectos pelos quais este se torna completamente apreendido cognitivamente, ou ao menos significado. Mas não se restringe ao tempo somente como leitmotiv narrativo, e sim o tempo como propulsor de uma investigação artística. Com isso não descarto a preocupação com o espaço, salientada em prólogo pelo coletivo, mas julgo que mesmo a concepção espacial empregada é erigida tendo por princípio a forma temporal segundo a qual traçaram sua obra colaborativa. Pueril marca o tempo – considerado como passagem contínua e necessária, e propulsor de desdobramentos vitais para os seres sob seu jugo – apresentando pela ação das personagens uma série de elementos, como mala, folhas, fotos; também uma gama de cantigas e brincadeiras remete constantemente à linha temporal, e sua elasticidade imaginária conduz o espectador aos recortes breves e instigantes da existência, tanto as do plano ficcional quanto da realidade. Essa é a vivência mais imediatamente posta aos nossos sentidos: existir é pôr-se de modo consciente em sintonia com o movimento vital dentro do qual somos ou poderemos ser algo - além da facticidade. O cosmos, na sua magnífica auto-renovação cíclica, revela-nos a circularidade da vida, e isso reflete certamente na percepção fundamental dos atos e acontecimentos pelos quais nem precisamos ter vivido diretamente para experimentar sua cor, cheiro, sabor. Pueril oferece ao público uma gama de sensações, acompanhadas pelos lampejos serenos e meditativos das personagens, que conduzem, à maneira de um devotado cicerone, pelas demarcações de memórias autoconscientes, expressivas de nostalgia, placidez, melancolia, afeições portadoras de universalidade. Devido a isso, cada espectador sente-se tocado no seu íntimo, integrando seu “agora” no timing da lembrança, ou fazendo um mergulho emocional por estados oriundos da natureza humana, herdados inconscientemente de gerações expiradas.

A proximidade das ações dramáticas com a vida real não se dá apenas pela verossimilhança dos acontecimentos cênicos em relação ao contexto existencial dos expectadores, mas sobretudo pela concórdia e integração do elenco. Isso não se consegue simplesmente juntando alguns profissionais que seguem a mesma pauta, convivendo por uma obrigação contratual. Os atores são, fora do tablado, amigos, parceiros, confidentes, e essa coexistência (marcada por inúmeros afetos) gera a sintonia intransferível que entra na cena e dá um tom especial ao enredo. Pueril é, nesse sentido, um laboratório de alteridades, um estágio para todo aquele carente de superar o desperdício de viver sem reconhecer o rosto do outro, uma chamada definitiva para abertura da subjetividade laqueada para o múltiplo e a diferença. Robson, Fabiana, Douglas e Daiana convidam seu público a volver o olhar, anestesiado pelo individualismo contemporâneo e cegueira espiritual, a presenciar nas entranhas do coração as razões ocultas da cada identidade, e isso se dará somente em consonância com os coadjuvantes de cada biografia.

A arte tem a virtude de penetrar nos lugares pouco visitados da alma e reencontrar experiências perdidas, ou a muito deixadas de lado. Assistir Pueril é se dar a oportunidade de recordar a singularidade pessoal na multiplicidade humana, recheada por edemas, fissuras, honras e esperança.

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