Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Meditação de Natal

Publicado no Jornal Diário de Sorocaba em 24 de dezembro de 2011

O fim de ano, para as mentes inquietas, é um momento especial por proporcionar uma série de interrogações relativas à avaliação pessoal. Isso significa que as pessoas portadoras destas mentes têm, nessa época festiva e corolária de uma trajetória vivenciada, uma certa necessidade de repensar o seu ano em todas as suas dimensões. Muitos ainda aproveitam o balanço feito para elencar propósitos de cunho positivo em que se dispõem à melhora de comportamento e ao aperfeiçoamento do caráter.

É claro que isso é importante e acaba por ser um comprometimento salutar para a alma. No entanto, mais do que fazer e reclamar promessas e decisões de mudança radical de vida, o Natal traz outras exigências mais tênues, impróprias para a extravagância pífia das celebrações natalinas correntes. Na verdade, trata-se mais de um convite do que exigência, convite este dado na sutileza do mistério comemorado. De nada vale recuperar na memória as experiências anuais e propor em continuidade novas ações e compromissos se não for meditado, antes, o valor da vida e o sentido de renovação oriundos do nascimento e revelação do Deus-menino à humanidade.

Imaginar o Cristo nascendo num lugar bucólico e repleto de simplicidade desnorteia qualquer tipo de arrogância e soberba. Afinal, aquele proclamado rei provém da morada dos súditos, cresce e vive no meio deles e, quando exerce seu reinado, o faz de forma atípica. Lugar de rei é no palácio, cercado de lacaios, condecorado de honras e cultivado a regalias. Inversamente, Jesus, zombado e humilhado, fez das ruas e das casas dos mais desprezados e injuriados o seu trono e o seu reino. Cercou-se de discípulos e esperançosos da sabedoria divina, e tudo o que obteve foi a condecoração degradante de blasfemador por uma platéia irredutível e zombeteira interessada unicamente em punir o traidor e escarnecedor das tradições.

Na realidade, Cristo demonstrou, desde o início de sua vida pública, um significado diverso e contrário de realeza. Ser rei, na atitude de Jesus, é dispor-se ao Bem, agir em prol dos sofredores e desorientados, é servir sem exigir recompensas (sobretudo materiais) e alimentar espiritualmente os desolados. Todos aqueles carentes de acalento e direção se aproximaram de alguma forma ao ouvirem a voz do Senhor ou simplesmente avistarem a sua presença. São muitos os relatos (como o da Samaritana e o de Maria Madalena) em que o contato amoroso germinou frutos de santidade – e esta representa o estado de mudança radical do modo de se relacionar com o mundo, com os outros e com si. O amor é o próprio sustentáculo do Bem, e o Bem, por sua vez, não se plenifica sem o complemento do amor. O amor a que Deus nos convida é a charitas, a doação gratuita ao próximo com a finalidade de apresentar-lhe, pela prática desse dom, a face copiosa do Criador.

Cristo não incentivou a filantropia. Filantropia, embora muitos tomem como sinônimo de caridade, não o é em hipótese alguma. Ele nos desafiou a tomar parte de um projeto de vida: a divinização da humanidade. O seu nascimento e ministério provam que vale a pena acreditar no homem e, unido ao Amor maior, agir em seu benefício, com vista no aprimoramento do seu ser e no comprometimento com os demais. Mas não apenas isso: a missão dos aderentes ao projeto de Cristo é o de criar condições de existência favoráveis aos propósitos do amor. Não basta amar, mas também proliferar a possibilidade de novos enlaces amorosos e estendê-los amiúde pelos mais nebulosos corações. Caridade é o abrandamento de si para o Bem livre de qualquer cobrança ou restituição, somente pela satisfação de encontrá-lo e fazer dele a motivação principal do viver. Eis o sentido da vida legado por Jesus, o amor incondicional e a corresponsabilidade de todos por todos.

Talvez estejamos longe desse ápice de humanização, todavia a consciência disso e a vontade de atingir tal graça também estão dentro do projeto divino, exigente mas recompensador, e o Natal renova, a cada fim de ano, a certeza deste mistério e o chamamento a se entregar aos seus desígnios. Com essa verdade celebrada no nosso hoje, podemos pensar no futuro e aumentar a nossa disponibilidade de amar e fazê-lo com vigor e humildade.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O monopólio das “minorias”

Publicado no Jornal Diário de Sorocaba em 14 de dezembro de 2011

A onda do presente é a dos famigerados discursos das “minorias”, tecnicamente definidas como grupos de sofredores e excluídos, que recebem injúrias e indiferença por parte da “maioria”, segundo estes alienada e de moral impositiva. São as pessoas incluídas nestes segmentos que, motivadas por agentes políticos engajados em partidos e geralmente em associações do terceiro setor, a se unirem em organizações reivindicatórias, mobilizam a sociedade em torno de suas queixas. Assim o fazem os movimentos em prol da legalização da maconha, da descriminalização do aborto, da defesa dos direitos de homossexuais, dos sem-terra, dos ambientalistas e demais frontarias.

Certamente a organização livre e ponderada de cidadãos empenhados numa causa de valor social não só é legitima no Estado de Direito, como também é capital na promoção de autêntica justiça. O problema é como esses movimentos têm tido mais ascensão e vultosos privilégios nos ambientes públicos (seja pela ação de deputados e ministros, seja pelos apelos sistemáticos de órgãos jornalísticos), em detrimento de outras instituições e representações sociais, parcial ou totalmente afastadas dos lugares de discussão, ou ao menos não levadas a sério nas suas posições e críticas. Políticos, intelectuais, professores universitários e pseudo-artistas estão engajados em pichar e repudiar os julgamentos das religiões e das entidades defensoras do conservadorismo a respeito das ações dessas “minorias” no cenário nacional.

Os membros ativos desses grupos permitem que os movimentos ao qual representam se filiem aos interesses majoritários de uma determinada frente política (na conjuntura atual, o PT e aliados), de modo a contribuírem com seus propósitos de poder, ao mesmo tempo garantindo as prerrogativas de sua pauta ideológica, conforme aquilo que almejam para seus beneficiados e não necessariamente para o bem do povo. Os ativistas políticos, percebendo que não poderiam moldar a sociedade segundo suas pretensões se não houvesse uma “revolução cultural”, com a derrubada dos valores tradicionais, se associaram às “minorias” na intenção velada de conseguirem pressionar a opinião popular a abrir mão progressivamente das suas raízes e aceitar as mudanças forçadas de maneira natural e totalmente passiva. Isso se faz mediante algumas estratégias contínuas:

1) Deturpação crescente do vocabulário ao usar enfaticamente, e sem o mínimo apuro de significado, palavras como “preconceito”, “discriminação”, “homofobia”, de modo a confundir as pessoas e persuadi-las de que a verdadeira e única acepção de tais nomes são aquelas designadas pelos grupos acima citados;

2) Insinuação, com apelos propagandísticos unilaterais, que todo aquele que se puser contrário ao discurso vigente das “minorias”é quase criminoso, e por isso precisa ser execrado do debate público, sem ao menos uma chance de expor as razões de divergência. Isso se deu muito a respeito daqueles que se puseram contra as cotas raciais, e hoje isso se repete em relação aos questionadores do movimento gay;

3) Ocultamento e manipulação engenhosa de dados e fatos, noticiados sempre com parcialidade e de forma superficial, sem verificação de confiabilidade de fontes e com forte inclinação interpretativa em favor desses grupos, hoje amparados pelo aparelho midiático e por investidores de grande porte econômico. Outrossim, eventos sociais promovidos para divulgar suas idéias são amplamente mostrados e elogiados pelos comunicadores, sem nenhum tipo de contestação.

Se confrarias políticas ocupam praticamente todos os meios de comunicação e espaços culturais, e suas reclamações têm sido prontamente acolhidas e invioladas, é prudente questionar: onde estão as lideranças antagônicas desta situação? Estão impedidos de falar ou se omitiram diante do poder adversário? São relegados ao esquecimento por forças dominantes ou se venderam barato a conveniências diplomáticas vergonhosas? Serão mártires ou traidores?

Uma democracia saudável e verdadeiramente legítima permite o confronto de apreciações sobre todos os assuntos que se colocam em pauta dos interesses públicos, sem qualquer tipo de restrição prévia. O conflito gerado pela heterogeneidade, cada qual na defesa de uma perspectiva unívoca, é a base da constituição dos fundamentos isonômico e isegórico, e nenhum dos atores sociais tem sobressalência sobre os demais, a ponto de fazer calar a voz opositora sem nem permitir a sua clamação.