Meditação de Natal
Publicado no Jornal Diário de Sorocaba em 24 de dezembro de 2011
O fim de ano, para as mentes inquietas, é um momento especial por proporcionar uma série de interrogações relativas à avaliação pessoal. Isso significa que as pessoas portadoras destas mentes têm, nessa época festiva e corolária de uma trajetória vivenciada, uma certa necessidade de repensar o seu ano em todas as suas dimensões. Muitos ainda aproveitam o balanço feito para elencar propósitos de cunho positivo em que se dispõem à melhora de comportamento e ao aperfeiçoamento do caráter.
É claro que isso é importante e acaba por ser um comprometimento salutar para a alma. No entanto, mais do que fazer e reclamar promessas e decisões de mudança radical de vida, o Natal traz outras exigências mais tênues, impróprias para a extravagância pífia das celebrações natalinas correntes. Na verdade, trata-se mais de um convite do que exigência, convite este dado na sutileza do mistério comemorado. De nada vale recuperar na memória as experiências anuais e propor em continuidade novas ações e compromissos se não for meditado, antes, o valor da vida e o sentido de renovação oriundos do nascimento e revelação do Deus-menino à humanidade.
Imaginar o Cristo nascendo num lugar bucólico e repleto de simplicidade desnorteia qualquer tipo de arrogância e soberba. Afinal, aquele proclamado rei provém da morada dos súditos, cresce e vive no meio deles e, quando exerce seu reinado, o faz de forma atípica. Lugar de rei é no palácio, cercado de lacaios, condecorado de honras e cultivado a regalias. Inversamente, Jesus, zombado e humilhado, fez das ruas e das casas dos mais desprezados e injuriados o seu trono e o seu reino. Cercou-se de discípulos e esperançosos da sabedoria divina, e tudo o que obteve foi a condecoração degradante de blasfemador por uma platéia irredutível e zombeteira interessada unicamente em punir o traidor e escarnecedor das tradições.
Na realidade, Cristo demonstrou, desde o início de sua vida pública, um significado diverso e contrário de realeza. Ser rei, na atitude de Jesus, é dispor-se ao Bem, agir em prol dos sofredores e desorientados, é servir sem exigir recompensas (sobretudo materiais) e alimentar espiritualmente os desolados. Todos aqueles carentes de acalento e direção se aproximaram de alguma forma ao ouvirem a voz do Senhor ou simplesmente avistarem a sua presença. São muitos os relatos (como o da Samaritana e o de Maria Madalena) em que o contato amoroso germinou frutos de santidade – e esta representa o estado de mudança radical do modo de se relacionar com o mundo, com os outros e com si. O amor é o próprio sustentáculo do Bem, e o Bem, por sua vez, não se plenifica sem o complemento do amor. O amor a que Deus nos convida é a charitas, a doação gratuita ao próximo com a finalidade de apresentar-lhe, pela prática desse dom, a face copiosa do Criador.
Cristo não incentivou a filantropia. Filantropia, embora muitos tomem como sinônimo de caridade, não o é em hipótese alguma. Ele nos desafiou a tomar parte de um projeto de vida: a divinização da humanidade. O seu nascimento e ministério provam que vale a pena acreditar no homem e, unido ao Amor maior, agir em seu benefício, com vista no aprimoramento do seu ser e no comprometimento com os demais. Mas não apenas isso: a missão dos aderentes ao projeto de Cristo é o de criar condições de existência favoráveis aos propósitos do amor. Não basta amar, mas também proliferar a possibilidade de novos enlaces amorosos e estendê-los amiúde pelos mais nebulosos corações. Caridade é o abrandamento de si para o Bem livre de qualquer cobrança ou restituição, somente pela satisfação de encontrá-lo e fazer dele a motivação principal do viver. Eis o sentido da vida legado por Jesus, o amor incondicional e a corresponsabilidade de todos por todos.
Talvez estejamos longe desse ápice de humanização, todavia a consciência disso e a vontade de atingir tal graça também estão dentro do projeto divino, exigente mas recompensador, e o Natal renova, a cada fim de ano, a certeza deste mistério e o chamamento a se entregar aos seus desígnios. Com essa verdade celebrada no nosso hoje, podemos pensar no futuro e aumentar a nossa disponibilidade de amar e fazê-lo com vigor e humildade.
