Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sobre mestres, discípulos e educação (II)



Publicado no Jornal Diário de Sorocaba em 28 de outubro de 2011


A relação discípulo-mestre vai muito além de um tramite comercial ou prestação de serviço. É contato respeitoso e entusiasmante, condimentado por incontáveis minúcias amparadas pela curiosidade e pela dúvida. O mestre, mais do que instrutor, é exemplo de vida e conduta intelectual e moral, sinal de altiva sabedoria e portador de esperança, e na sua vida transparece indistintamente suas concepções e méritos na coerência das atitudes diante dos fatos e enigmas do mundo. Não quero em hipótese alguma comparar a noção de mestre com a dos doutrinadores políticos, que se aproveitam da atenção de jovens ingênuos para vender a eles o programa ideológico dos seus partidos ou dos grupos sociais a que pertencem, sem presumir que seus alvos têm ao menos o direito de confrontar seus discursos com outros contrários e extrair da reflexão pontos de vistas particularizados. Isso é abominável e não corresponde em nada ao sentido que estas linhas pretender esclarecer.


O mestre, antes de tudo, é um venerador da tradição. A noção de tradição – expressa de maneira equivocada pelos oportunistas e ineptos como “coisa atrasada” ou “ultrapassada” – está unificada ao feito de “trazer de novo” algo vivido e merecedor de avivamento, ou seja, o apelo à tradição consuma-se no ato de reviver na temporalidade presente experiências relacionadas ao pensar, sentir, agir, que podem auxiliar a compreender como pensamos, sentimos e agimos, para assim orientar os modos de ser na atualidade. O mestre, como alguém experiente, consegue articular as angústias e crises do momento com aquelas experimentadas por gerações de outrora, podendo então aconselhar e ensinar os caminhos sensatos tendo por base não apenas teorizações, mas vivências humanas acertadas ou fracassadas.

Devido a isso e demais fatores oriundos de cada repertório pessoal, o mestre é tido e respeitado pelo discípulo como autoridade. Aliás, os filósofos medievais valorizavam os antepassados quando teciam suas meditações: a auctoritas era exatamente o fator referencial para os debates e investigações acadêmicas, os quais resultavam em discursos sedimentados em grandes conhecedores das matérias tratadas. Os fundamentos filosóficos das teses eram elaborados em diálogo permanente com o já pensado, e isso fazia dos homens do passado inegáveis conselheiros e guias dos pensadores. Mesmo nos dias hodiernos, ainda que prevaleça por parte de uma gama de pensadores a repulsa pela tradição, filósofos de séculos atrás são evocados quando tudo o que sobra resume-se em neblinas e trevas.


Quando transportamos esse breve quadro ao campo pedagógico e escolar, fica explícita a total inversão de valores pela qual passa a sociedade, sobretudo brasileira. O sistema educacional tem mimado o educando, pois incentiva a postura autossuficiente (na acepção arrogante do termo) e a desconsideração pela autoridade do professor como portador de uma ciência ainda não degustada pela juventude. As leis dão excesso de direitos aos adolescentes e jovens, em contrapartida tira deles a maioria das responsabilidades necessárias ao bom aprendizado. Formalmente o sistema cobra uma postura séria, mas no decorrer das práticas de ensino os educadores são menosprezados e ridicularizados costumeiramente por estudantes pouco devotos à busca de saberes fundamentais.


José Nedel, em artigo intitulado “Educação e Autoridade”, afirma categoricamente: o que possibilita o desenrolar com êxito de qualquer obra educativa é o fator autoridade, estabelecida pelo uso do múnus científico daquele que ensina, sem com isso desprezar o que o aprendiz tem a contribuir. A liberdade, conforme Nedel, complementa-se com a autoridade, ambas associadas para despertar o que há de melhor no indivíduo. Diz: “Uma e outra, autoridade e liberdade, têm o mesmo fim: o exercício pleno das faculdades do educando e a realização do seu ser na forma quanto possível perfeita. Aliando-se a autoridade pedagógica ao que há de melhor no aluno, defende-o contra ele próprio e o ajuda a alcançar sua maturidade e autonomia interior.” A autoridade do educador, imprescindível para atrair confiança e admiração, é condição sine qua non para adquirir a verdadeira autonomia, gradativamente e com a consciência das suas capacidades e obrigações, e não o oposto. Porém, se falta disposição sincera e voluntariosa para aquisição de conhecimento, fica complicado exigir sucesso ou algum aprimoramento espiritual.


O espírito do discipulado precisa ser estimulado nos estudantes caso o país queira um mínimo de dignidade na educação. Ninguém está livre de crises e sobressaltos, e no anseio de solucionar as angústias a primeira lição é a de se colocar como ouvinte humilde e atencioso de alguém que pode nortear suas escolhas de acordo com o bom uso da liberdade. Se os mestres – título com o qual os professores e outros mentores deixaram de ser condecorados há bastante tempo por seus orientandos – não tiverem o devido respeito e estima, receio nunca mais haver possibilidade de recuperar a importância social do educador e, por conseqüência quase direta, seu interesse e empenho pela nobre arte de ensinar, que vem se dissipando paulatinamente neste cenário desestimulante.

0 comentários: