Sobre mestres, discípulos e educação (I)
Publicado no Jornal Diário de Sorocaba em 16 de outubro de 2011
A figura do mestre, instigante no processo cognoscível, é uma invariável presença desde tempos remotos. Aristóteles escreveu seu tratado ético e dedicou a seu filho Nicômaco como ensinamento e lição de vida; Santo Agostinho, na obra De Magistro, dialoga com Adeodato sobre a linguagem e a verdade de Deus, presente no interior de cada homem; Martin Heidegger, filósofo alemão, dedicou sua obra máxima, Ser e Tempo, a seu mentor Edmund Husserl, o mesmo que viria a suceder na cátedra de filosofia na Universidade de Friburgo; e assim muitos outros casos poderiam ser enumerados para explicitar o vínculo primaz e significativo entre o aprendiz e seu tutor, ou educador – para empregar termo moderno querido pelo grupo de profissionais do ensino.
Ocorre que no momento presente a pessoa do mestre caiu em descrédito, tamanha a banalidade do trato com a questão educacional, e a então alusão necessária à sabedoria ancestral transmitida pelas gerações se perde na precariedade intelectual de nossos contemporâneos desorientados. O mestre, portador de sólida credibilidade no tangente aos preceitos oferecidos para o discípulo solícito, é substituído com rapidez por qualquer charlatanismo atrativo, ou pela arrogância dos educadores de gabinete que julgam terem achado a solução final para todas as dificuldades pedagógicas com sistemas prolixos e ilusórios.
A bola da vez das doutrinas educacionais é o Construtivismo, desenvolvido há poucas décadas, titular absoluto do time dos burocratas do ensino. Pensadores como Jean Piaget e Lev Vigotsky contribuíram para que a educação fosse entendida enquanto espaço exclusivo de interesse individual desligado da correspondência com a realidade, em que o conhecimento não se esmera na evidência e apenas adquire valor quando “construído” pelo aprendiz, de acordo com suas preferências, vontades e motivos circunstanciais. Nessa vertente pedagógica, o papel da educação é simplesmente estimulá-lo, com base no contexto de sua vida e na capacidade inerente ao seu desenvolvimento vital, a elaborar mentalmente sentenças que guardem ao menos um pouquinho de coerência lógica, ou seja, certa veracidade minimamente aceitável, segundo algum critério arbitrário. O mestre, ou professor, ou educador, torna-se somente uma ferramenta de descoberta, e sua contribuição não passa de facilitar o acesso de conteúdos programados.
O conhecimento pensado assim é, no mínimo, incoerente, para não dizer descabido. Conhecer não é mera manobra conceitual, nem um enunciado criado a partir das ideias livres desprovidas de precisão racional, mas ao contrário, é a atividade de, no reconhecimento do ente que se revela (toda e qualquer manifestação existente), absorver dele as informações essenciais, tratadas em seguida pelos procedimentos intelectuais de reverberação simbólica. Não há “construção” de aprendizados: elaboram-se, pelas vivências do real, modos de inserção aprofundada na própria existência para então fazer emergir o significado das presenças inquiridas, culminando num processo de assimilação do verdadeiro. Capturar o ente na sua é se dispor a vislumbrar seu ser. Não se constrói a essência de algo, mas se “des-cobre” o sentido ao mergulhar intimamente, em perspectiva dialógica, na observância daquele que se dá a ver.
Quem adere ao construtivismo sem matutar criticamente seus pressupostos, tem a séria tendência em aceitar como “postura educativa” a livre associação de impressões e coisas, dando ao sujeito o papel de soberano absoluto das significações. Inversamente, o conhecimento brota da relação autoconsciente com os entes, que possuem por si mesmos “vestígios” independentemente da apreensão cognitiva do sujeito. Aliás, todos nós somos, em medida equivalente, sujeitos e objetos – percebemos e nos damos a perceber. Uma pedra “nos fala” e sente a seu modo nossa presença, e não deixará de ser o que é; ela não pode ser um avião ou outro ente que queiramos acreditar e fazer dela (nesse contexto, a criança sim pode trabalhar com figurações, mas isso se refere apenas ao plano imaginário e não efetivo da realidade, diferença essa que, ao longo do aprendizado, deve ficar realçada). Essa verdade do conhecimento não se restringe ao conteúdo adquirido e verbalizado, mas ao tipo de relação existencial mantida entre o conhecedor e o conhecido.
Todas as bobagens construtivistas só serviram para afastar as pessoas do exercício genuíno de busca do saber e incentivaram muitos a desprezarem a experiência do educador, acreditando na falsa premissa da “liberdade de interpretação para tudo”. Enquanto o discípulo, ou aluno, tiver proeminência total nos processos de aprendizagem contemporâneos, sem considerar os demais participantes em igual margem de importância, a valorização dos autênticos mestres estará seriamente comprometida.

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