Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







sábado, 17 de setembro de 2011

Vamos todos educar?

Publicado no Jornal Diário de Sorocaba em 04 de setembro de 2011

 
Educação não é apenas direito do cidadão, mas principalmente seu dever. Cada indivíduo, sem exceção e em qualquer idade, tem de priorizar entre as suas metas e obrigações o requintamento dos valores morais, da inteligência e a conquista e vivência plena da liberdade, sem as quais não se pode experimentar a felicidade verdadeira.

Contudo, não é de agora que se percebe, observando a situação real dos estudantes em nossas escolas, posturas contrárias à responsabilidade pessoal: jovens completamente desinteressados pelo estudo, juntamente com muitos pais ausentes e pouco preocupados com a educação dos filhos. No Brasil, o painel educacional é cada vez mais grave e alarmante, haja vista a crescente falta de vontade dos nossos educandos (guardadas as devidas exceções) em obter conhecimentos “inúteis”, ou seja, voltados simplesmente para o prazer da descoberta e da reflexão, sem aplicação funcional (exatamente aqueles dirigidos para a formação humana integral e definidora da personalidade sadia e de competências genéricas), enquanto boa parte dos pais, confusos e desorientados no meio do furacão nebuloso e frívolo oferecido em desmedida pelo mundo contemporâneo, não consegue meios de estimular seus descendentes a progredir a cata de novos horizontes instigantes e abrangentes.


O adolescente – cuja fase juvenil é a mais difícil e conturbada – não consegue sozinho visualizar o quão importante são os estudos que realiza nessa etapa vital, tanto na escola como em outras instituições de ensino que por ventura frequente. Ele não enxerga o quanto seu ser é enriquecido e aprimorado pelo labor intelectual, sem dúvida um benefício impagável e intransferível na travessia do engrandecimento do espírito, algo incrivelmente além da simplista tecnicização do conhecimento, proposta essa que, se tomada isoladamente, irá deixando-o à margem das dimensões da vida em proveito apenas da concretização de habilidades voltadas ao trabalho. O saber adquirido, seja nos institutos de ensino ou no regalo familiar, se destina à totalidade da pessoa humana, e não pode se reduzir, sob nenhuma condição, para a mera instrumentalização em favor da atividade profissional sem levar em conta os demais componentes da existência.


O mais triste, porém, é a falta de envolvimento de muitos adultos nesse processo vital para a constituição de uma pessoa de bem, completa e preparada para enfrentar dificuldades em todos os campos. Quando a negligência e a escassez de boa intenção tomam assento no costume dos adultos, sejam pais ou responsáveis legais, não é possível exigir muito dos filhos, e com isso os resultados posteriores serão fatalmente prejudiciais para eles. Toda experiência de vida individual passa necessariamente por uma série de aprendizados, e se faltar nessa passagem um comprometimento ajuizado e perspicaz, por parte do aprendente e de seus acompanhantes e auxiliares, essa expectativa de abertura ao conhecimento pode se perder de forma irrecuperável.


Estimados pais: educar um filho não é apenas encaminhá-lo para outros fazerem o serviço; educação não pode ser terceirizada. Educar é oferecer cuidado, no sentido mais pleno que essa palavra possa ter. Cuidar de um jovem é saber orientá-lo e acompanhar com dedicação as alegrias e obstáculos, anseios e decepções a assaltá-lo durante seus “anos dourados” de desvendamentos e aprendizagens. Sobretudo, educar é “abrir a cabeça” do jovem para pensar o futuro, fazendo-o entender a importância de se preparar o melhor possível para beneficiar a si próprio e a todos os seus no decorrer da jornada vital. Com paciência, vontade e atenção dadas ao processo educacional da juventude, em toda a sua extensão, certamente a sociedade inteira vai se favorecer.

É o momento de todos fazermos a nossa parte para mudar o lamentável quadro dos estudantes e aprendentes brasileiros, dedicando uma atenção especial ao preparo escolar e cívico dos jovens. Somos nós – país, educadores e formadores em geral – os semeadores da juventude de hoje, e se nosso trabalho for realizado da maneira certa, com bom senso e solicitude, os adultos de amanhã serão homens e mulheres dignos de honra e admiração.

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