Arte e experiência religiosa
Publicado na Revista Pietá, edição de setembro de 2011
A religião não é apenas o meio de unir Deus à criatura pelo intermédio de ritos, ensinamentos e práticas espirituais; é também um movimento racional de autoconhecimento. O homem, ao se aproximar do divino, pode fazê-lo sem dimensionar o seu envolvimento com tal experiência, permanecendo sempre como um estranho diante Daquele que admira (nesse caso se utilizando largamente de fórmulas vagas e gestos vazios, sem verdadeira entrega), mas o esperado de todo aquele que deseje aprofundar sua vivência de fé, é a contemplação total, sincera e interiormente motivada pela confiança, fruto da união livre e desinteressada, o que requer uma postura de abertura à própria existência e a perspectiva de mudança.
A arte, tal como a religião, expressa sempre, ainda que por vias indiretas e pouco esclarecedoras, o estado da alma humana. Mesmo o mais simples objeto escultural pode transmitir ao espectador perspicaz e de sensibilidade aguçada, os toques sutis (particulares do indivíduo-artista) a compor não apenas uma forma material, mas toda uma complexa concepção de beleza, composta pela organização de elementos selecionados “a dedo” pela mente criadora.
Arte e religião possuem ainda outro ponto em comum: tornam evidente ao íntimo de cada ser humano a necessária atitude de “sair de si” (da exclusividade de sua própria situação, do egoísmo e da autossuficiência) e perceber o mundo a sua volta, as angústias e sofrimentos das outras pessoas, praticamente invisíveis no dia-a-dia da turbulenta vida de cada um. Se uma obra artística ou a experiência religiosa não gerarem nas pessoas uma mudança de perspectiva, não as fizerem refletir nada, não produzirem quaisquer sentimentos renovadores, então deixaram de cumprir sua “missão” mais importante.
Ainda tem mais uma aproximação possível. A religião e a arte se unem na contemplação da beleza, associada ao mergulho edificante na realidade sagrada, ou na sacralidade do mundo. O filósofo Vilém Flusser apresenta claramente essa relação no seu escrito Da Religiosidade: “Chamei de religiosa a busca de beleza (...) esta se torna sinônimo do resplandecer do sacro, da hierofania. O presente ocidental, no qual estamos mergulhados, carece de beleza, porque está agastado da proximidade do sacro”. Quando uma criação artística, de origem religiosa ou não, nos faz sentir emoções novas, acompanhadas de novos pensamentos sobre qualquer coisa, ela eleva um pouco mais nossa alma para além do lugar-comum da nossa morada, e isso acarreta num engrandecimento pessoal e na conquista de novas visões de mundo. O belo transparece nessa elevação espiritual, na melhora da nossa capacidade de enxergar a realidade e, numa associação direta com a religião, agir para modificar o que é preciso, preservar aquilo que é bom e celebrar todos os acontecimentos essenciais.
A arte, como reflexo da condição humana, torna-se bastante próxima da experiência religiosa, embora elas tenham as suas características próprias. Mas as duas são fundamentais para o homem crescer em aspectos indispensáveis do seu viver – como a sensibilidade atuante e o conhecimento de si – sem os quais não se pode prosperar e fazer a diferença nesta terra.

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