Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







sexta-feira, 8 de julho de 2011

Opinião

Os intelectuais e as drogas

A investida para a legalização do uso da maconha no Brasil está crescendo a olhos vistos. Não parte do povo brasileiro este desejo pulsante, mas sim de grupos pró-descriminalização, movidos por uma agenda ideológica de corromper os valores sociais cultivados no pais. Os intelectuais são notórios promotores dessa mentalidade submersiva, no pior sentido que isso possa ter, sobretudo para as futuras gerações. Políticos, "artistas", lideranças sociais se esguelam pedindo que a maconha seja permitida, e o fato de serem pessoas públicas faz parecer que tal campanha representa a vontade nacional, algo completamente falso apesar de conveniente aos interessados.

Apresento este artigo do bacharel em direito Pedro Cardoso da Costa, publicado no Jornal Diário de Sorocaba no dia 05 de julho de 2001, cujo conteúdo, bem delineado e implacável, exemplifica a situação descrita acima com brevidade. 

FHC quer legalização da maconha

Por Pedro Cardoso da Costa

As campanhas pela legalização do consumo de maconha se expandem dia a dia pelo mundo todo. À medida que elas crescem, vão surgindo defensores de peso, como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (Brasil) e Bill Clinton (EUA). Estes pesos-pesados dão uma conotação de legitimidade e de acerto pela legalização, mas não passam disso. Na prática, o Brasil não vai legalizar nada disso, pois, de mesma forma que existe a certeza de que o combate não resolveu nada até hoje, não se tem certeza de que poder consumir à vontade não agrave o problema.

Existem posições acerca do uso da maconha que precisam ser clareadas para se afirmar se é a ilegalidade que ajuda na permanência do problema ou se restringe apenas à omissão do Estado, com ações ineficazes. Já foi diagnosticado que o combate na `ponta' não resolve, mas as fronteiras do Brasil são um queijo suíço e nada de efetivo foi feito agora. Até a única aeronave destinada ao combate nas fronteiras não tem previsão de utilização, por falta de condições. Não se vê a incineração das drogas apreendias e não raro somem toneladas das delegacias, como ocorreu em Campinas há algum tempo.
Ao defender a legalização da maconha, Fernando Henrique segue uma convicção arraigada nos brasileiros de que os problemas se resolvem apenas colocando intenções em papel, numa lei. O excesso delas já apeou este País pela burocracia e confusão jurídica que se forma em torno delas e também por conta disso as demandas nunca terminam. O fato de a permissão constar numa lei não resolverá, nem minimizará o problema. Antes, deve se fazer o debate correto, já que predominam as distorções sobre o problema.

Os traficantes são corretamente demonizados por todos. Eles são xingados na televisão, no rádio e pelos familiares. Muitos pais que os xingam depois de o filho já estar viciado fizeram vista grossa quando seu pupilo chegava madrugada a dentro em casa, sem dar nenhuma explicação ou aceitando eles qualquer desculpa. Não sabiam e nem queriam saber (os pais) com quem andava. Esses mesmos pais fingiram que não percebiam a iniciação do filho com as drogas. Antes de culpar apenas o traficante, é preciso coerência no discurso, portanto. A formação de usuário e traficante é idêntica à geração de uma criança que, seja qual for o processo, ainda só é possível por meio de um homem e de uma mulher. Um é responsável pela existência do outro. Ao contrário do ovo e da galinha, entre usuário de droga e traficante, todo mundo sabe quem nasce primeiro.

Distorcem também quando se trata o usuário apenas como vítima de tudo, o cordeirinho, sem nenhuma responsabilidade pelo caos em que transforma sua própria vida. Quem defende essa posição se esquece do início do consumo, quando as pessoas que alertavam para o risco eram tachadas de caretas e sofriam todo tipo de deboche do grupo e do próprio usuário. Outra defesa infantil é chamar o usuário de doente, sem mencionar que quis e é o responsável pela sua doença, pois nunca se nasce com o vício, como não há vírus que desenvolva o vício. O viciado de hoje foi o autossuficiente, o arrogante, o avançado de outrora.

Outro erro grosseiro foi a descriminalização do usuário, mas não a forma de aquisição da droga. Todas as formas de aquisição são criminalizadas. Seria complicada a situação de um policial que se depare com uma pessoa comprando droga para consumo próprio. Como não se pode ter um vendedor para cada usuário, estes seriam liberados e o traficante preso. Configura uma dicotomia inexplicável e incoerente.

Concomitante a um debate coerente sobre o tema, as autoridades deste País devem ser forçadas pela sociedade a criar e aparelhar clínicas de tratamento. Ora, o avanço tem que ser gigantesco e total, pois este País nem sequer cuida dos não viciados, que morrem todo dia nos hospitais públicos sem atendimento. Recife é apenas o exemplo recente, onde mais de mil pessoas precisaram, mas morreram antes de chegar a uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Sobre estes, o então presidente Fernando Henrique Cardoso se fez, fez pouco, e nunca pronunciou uma palavra em defesa deles.

Como diz o Jô Soares, sem repetir e já repetindo, a maconha é a porta de entrada para todas as outras drogas; o enfrentamento deve ser idêntico ao da morte. Mesmo que se tenha certeza da derrota, deve-se combatê-la sempre. Se apenas a legalização resolvesse o problema, antes de descriminalizar o consumo da maconha, dever-se-ia descriminalizar o assassinato. Quem sabe teria solução esse probleminha que mata mais de 40 mil por ano no Brasil.

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