Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







quinta-feira, 5 de maio de 2011

Regressão Continuada



Publicado no Jornal Diário de Sorocaba em 01 de maio de 2011

A educação paulista, reflexo em parte da degeneração paulatina da educação nacional, vai de mal a pior, situação imposta por variados fatores, desde a omissão política e a falta de agentes realmente capazes de fazer a diferença, até as dificuldades culturais e sociais do povo que desfavorecem uma proposta educacional consistente e duradoura.

É de conhecimento público, graças ao empenho do poder público em divulgar seus feitos sem maiores esclarecimentos, que o governo do Estado de São Paulo pagou um bônus para os profissionais das escolas bem sucedidas no SARESP – avaliação oficial da Secretaria de Educação – sucesso medido pela superação da meta proveniente do IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo) da unidade escolar através da nota alcançada pelos alunos. O critério do pagamento sofreu alterações no governo José Serra, com o auxílio de Maria Helena Guimarães de Castro e Paulo Renato, secretários de educação da gestão do ex-governador, basicamente se assentando sobre o desempenho dos alunos. Receberam bônus, portanto, as escolas que sobrepujaram o indicador anual, quantificado a partir dos índices estabelecidos conforme o resultado da avaliação estadual e a nota de cada escola estadual em particular.

Há uma dupla estratégia política nessa tacada: o governo posa de bom samaritano ao “ajudar” os professores que se empenharam o máximo pelos seus alunos, e se exime de culpa caso não pague a equipe escolar que falha no objetivo de elevar o conhecimento dos estudantes. Resumindo: o Estado é, ao mesmo tempo, benevolente e justiceiro, recebendo as glórias por remunerar o sucesso da unidade escolar e se imunizando de qualquer crítica direta, visto que os “culpados” foram os educadores e gestores incompetentes.

Basta pensar com coerência e boa-fé para chegar a conclusão quase óbvia de que uma prova com esse perfil não avalia a qualidade de uma escola, pois não inclui as atividades, projetos e iniciativas que envolvem o todo escolar, dos quais o governo praticamente não toma parte. Além disso, o dado mais complicado é aquele referente ao envolvimento dos alunos com o aprendizado: a maioria dos jovens educandos não se importa nem um pouco com sua autoeducação, e sei por experiência própria e pelo relato de colegas que boa parte deles não se dedica nada no dia do SARESP, se omitindo de fazê-lo com seriedade. É justo o trabalho de um ano ser jogado na lata de lixo pela negligência e irresponsabilidade moral dos estudantes?

O maior culpado pelo resultado insatisfatório de muitas escolas é o próprio governo, que desde a implantação da Progressão Continuada somada à pressão  de dirigentes e supervisores de ensino para a obtenção de resultados e ocultamento de problemas, só fez piorar a qualidade do ensino tirando do aluno o dever de ter compromisso com sua formação. A obrigação de estudar é um valor que deveria ser disseminado pelos quatro cantos do Brasil, pois uma sociedade só evolui verdadeiramente se todos se conscientizarem da importância do conhecimento para a elevação moral e cidadã do coletivo.

A Progressão Continuada, na prática, facilita o desprezo pela idoneidade da instituição escolar e pela necessidade de alcançar bom desempenho nos estudos (ouvi várias vezes de alunos de escolas estaduais: “nem me preocupo com a nota, já sei que vou passar mesmo, que ninguém repete!”). Com essa mentalidade, o professor fica de mãos atadas, não tem autonomia para exigir mais de seus alunos, sendo cobrado pelos manda-chuvas pedagógicos a aprovar estudantes incapazes de passarem para a série seguinte. A corrupção do sistema educacional paulista chega ao cúmulo de desprezar por completo o bem humano em troca de números favoráveis – mendazes – à beneméritos econômicos. No fundo, todos os envolvidos sabem do recuo da inteligência que essa “regressão continuada”, expressão dita a bom tempo por Reinaldo Azevedo (ver: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/regressao-continuada-mediocridade-politica/ )
 provocou na geração da última década e continuará provocando caso não seja revista a postura da Secretaria da Educação. É urgente descer do pedestal de arrogância e rever o procedimento caótico antes da ruína total.

Como educador, espero das autoridades uma postura mais séria e comprometida com a valorização do professorado e seu labor pedagógico. Como cidadão, aguardo do Estado e dos políticos maior atenção aos jovens, sobretudo com medidas legislativas cuja finalidade seja o despertar do senso de responsabilidade e obrigação pessoal do aprendizado. Como brasileiro, torço para meus compatriotas tomarem consciência do tesouro que está sendo desperdiçado com a falta de atenção à educação, e com isso se motivem a correr atrás do prejuízo enquanto há tempo.

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