REDESCOBRINDO UMA NAÇÃO: O OLHAR PINDORÂMICO
Seria imaginável uma visita inesperada, e de certo movida pelo acaso, do Senhor Jesus aos trópicos? Para o grupo teatral Nativos Terra Rasgada não só é admissível como realizável cenicamente. O espetáculo Pindorama: A Saga de um Cristo, última criação dos sorocabanos, leva para a cena Jesus Cristo e um companheiro cego (ex-cego, depois de curado pelo mestre) que fogem para uma terra longínqua e inóspita, pronta para ser desbravada. A causa dessa travessia é apenas uma: Maria Madalena. A tal senhorita deseja se unir em matrimônio ao Salvador e devido a isso age com perseguição assediosa, mas quando Cristo se liberta da cruz resolve partir para outro continente, acompanhado de seu mais novo discípulo, a fim de ficar o mais distante possível da megera grudenta. Ela, porém, sem desistência, se alia ao diabo (uma diabinha na verdade) e partem a procura dos exilados em terras brasileiras, sem saber quais peripécias iriam acompanhá-las nessa missão intrépida, e aos fugitivos também.
O espetáculo traz à cena os atores Flávio Melo, Tom Ravazoli, Bruna Salatine, Stefany Cristiny e Juliana Prestes, tendo Rodrigo Zanetti na técnica e as contribuições de Carlos Doles e João Bid, para a encenação e o preparo vocal respectivamente. Todos consolidam um espetáculo leve e divertido, com ilustrações e cantos, narrações fictícias misturadas a acontecimentos verídicos da história do Brasil, como as artimanhas da colonização (a catequese dos índios, por exemplo) até o golpe militar e a edificação de Brasília, capital do país das contradições. Como recursos cênicos destacam-se os usos simbólicos de materiais e objetos, transformados de acordo com a narrativa e servindo de mote criativo ao jogo teatral entre os intérpretes.
O Nativos tem se dedicado com atenção quase exclusiva ao teatro feito na rua, ou em lugares pouco usuais para espetáculos – ao menos assim considerados a primeira vista – e a trajetória do grupo mostra-se bem sucedida até o presente momento, predizendo pelas demonstrações da sua pesquisa e obras um futuro promissor. A sequência de espetáculos itinerantes, desde Zorobe, passando por A Romaria até o referido Pindorama, é fruto de projetos cujo objetivo não é somente a exibição pública de uma produção teatral, mas a viabilização da investigação artística e proporcionalmente científica sobre o fazer teatro na rua e em espaços parateatrais, de natureza distinta e presumivelmente hostil, dada ao atributo simbólico dos locais não análogos ao senso comum do espaço cênico – palco e platéia, à maneira italiana. Os conceitos de teatro de rua (trabalho cênico realizado para espaços não tradicionais, com importância artística e destacadamente social pela transladação do espetáculo para públicos que não freqüentam habitualmente o teatro) e teatro popular (aquele que parte do contexto do povo e o coloca como protagonista, mesmo não sendo feito pelos “populares”) se intercalam e passam do plano da definição racional encerrada à matéria de conhecimento e debate, e dessa condição inacabada o grupo não abre mão. Mesmo sem completa teorização da linguagem levada à exibição cênica, algo bastante aceitável num procedimento investigativo de caráter experimental, o grupo busca inserção em círculos públicos de debate sobre teatro como propositor de idéias e ações.
Pindorama, popular e moderno, realista e fantástico, põe a mostra algumas mazelas brasileiras e, contando tais fatos, deixa entrever a dúvida quanto à fala oficial transmitida para gerações e gerações de estudantes através dos livros e manuais usados pelo ensino oficial. Essa é uma virtude de qualquer artista que se preze a mexer com valores e discursos solidificados: o grupo não se furta a expor, na boca das personagens, o juízo próprio sobre os eventos marcantes da história deste país. Consentâneos ou não com o “olhar pindorâmico” sobre o processo cultural ocorrido nos trópicos (pois toda informação pode e deve passar pelo crivo dialético para melhor concepção do real verdadeiro), o Nativos avalia o percurso formativo do povo e da nação com inclusões diretas e certeiras, deixando claro ao espectador atento que se trata de observações contestatórias da aparente puerilidade dos conflitos dramáticos encenados, como apontamentos a retirar do público a aceitação torpe da fábula envolvente compositora de qualquer relato histórico, em especial aqueles destinados a falsear a realidade, portanto, paradoxalmente não-históricos. É demasiado interessante, assim, o comparecimento de personagens religiosos conduzindo a trama, o que prescreve a influência decisiva da cultura popular na dramaturgia do espetáculo, ao modo Gil Vicente, Ariano Suassuna e outros escritores do mesmo universo. Pindorama, embora não trate de fé, utiliza-se das figuras bíblicas como representação das infelicidades e esperanças das pessoas. O Cristo (evidentemente não o Jesus histórico nem teológico) é a síntese de todas as incompreensões e incoerências do processo civilizatório brasileiro, e suas surpresas e inércia em determinadas situações é a mostra da surpresa e da inércia induzida do povo, passivo diante das falas competentes e planejadas.
Vale a pena se divertir e pensar com Pindorama, e mergulhar ludicamente pela dramaturgia criada na trajetória deste gigante feito pátria. Com Cristo ou sem Cristo, o olhar atencioso e avaliador sobre nossa história e nossas crenças (nossos mitos?) é a grande oportunidade que essa bem-sucedida encenação propicia ao espectador.

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