Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







sábado, 12 de fevereiro de 2011

Paradoxos (anti) democráticos


Publicado no Jornal Diário de Sorocaba, em 10 de fevereiro de 2011

A democracia é o regime mais adequado nos nossos tempos pelo simples fato de incluir todas as pessoas que compõem a comunidade política e lhes considerar aptas e admissíveis para colaborar na elaboração das diretrizes e encaminhamentos gerais da vida em comum. Pelo direito democrático, podemos ser ouvidos, ter nossas idéias acolhidas ou impugnadas, eleger quem queremos ou ao menos decidir por votar na oposição ao candidato mais cotado a assumir o poder. Tais prerrogativas, porém, levam inevitavelmente a certos abusos, detratores dos princípios mais elementares da regra democrática. Acometimentos dessa ordem são manifestos no cotidiano brasileiro quando parcelas da sociedade usam do direito isegórico (poder falar) e isonômico (igualdade social) para divulgarem suas ambições e códigos morais como únicas aceitáveis no momentâneo contexto social.


Os tão conhecidos grupos segmentários (associações de pessoas com perfil comportamental e ideológico similar, com fins de fazerem-se reconhecer, perante a sociedade, a partir dos seus modos de pensar e agir específicos), dentre os quais se incluem os movimentos feministas radicais, a comunidade LGBT e as demais tribos que se autodesignam “excluídos”, ganharam espaço no cenário político ao divulgarem com grande êxito suas posições e ideais, seja em eventos públicos como a “Parada Gay”, em veículos midiáticos e através de formadores de opinião (jornalistas, intelectuais, educadores). A pauta mais alardeada contém as recentes agressões julgadas como homofóbicas e a liberação do aborto. Tais questões, porém, não são debatidas com a seriedade e isenção esperada para assuntos de interesse público; com malícia e cara-de-pau imperativa, os temas são usados como matrizes de uma série de palavreados demagógicos e unilaterais, de desprezo e discriminação às esferas sociais ditas “reacionárias” como as igrejas cristãs e instâncias do poder judiciário, mesmo havendo indícios de que as alegações e os eventos não são tão reais como fazem aparentar (Ver na Internet: http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/populacao+rejeita+mudancas+na+lei+sobre+aborto+gays+drogas/n1237848797384.html  ; http://www.midiasemmascara.org/artigos/desinformacao/11637-a-manipulacao-dos-dados-de-assassinatos-contra-gays.html ; http://www.olavodecarvalho.org/semana/051124jb.htm  ). Com isso tem-se uma impressão clara da falta de diálogo com a herança cultural da população, e essa incomunicabilidade premeditada contra a tradição apenas visa envolver o máximo de indivíduos possível no combate aos valores sociais estimados e mantidos por gerações.

Todos têm liberdade de expressarem o que sentem e pensam, de criticar e propor mudanças julgadas oportunas. O problema é quando essa prática se torna impositiva, a ponto de manipularem determinadas estruturas (fatos, dados, conceitos) para ludibriar a mente dos cidadãos, ao invés de esclarecê-los suficientemente sobre a matéria de discussão e torná-los cientes dos problemas com conhecimento de causa. Tal é a intervenção de boa parte destes grupos, decididos não a proteger seus afiliados, e sim ingressar na esfera de poder e detonar os seus críticos e desafetos. Esse é o primeiro paradoxo: a democracia favorece a diferença, e em nome dela quer-se homogeneizar os costumes.

Para essa empreitada, uma das alternativas mais profícuas é o discurso mistificador, pelo qual as palavras são manejadas ao bel prazer do orador e associados, cuja meta é a divulgação das idéias convenientes a empreita e seus pretextos. O mais banalizado de todos os termos, usado a rodo por militantes de todas as ordens, é o dito “preconceito”, que de concepção cunhada por motivos particulares sem a devida avaliação racional, passou a ser o conjunto de sentenças discordantes de uma determinada classe ou linha de pensamento hegemônica entre uma casta de oportunistas. Se prestarmos atenção, os preconceituosos, no sentido verdadeiro da palavra, são os acusadores da moral tradicional, que por desconhecerem completamente a profundidade do seu fundamento legitimador lidam apenas com estereótipos forjados e sem consistência. Assim como na época de Platão, a democracia instaura a condição paradoxal da possibilidade do uso geral da fala para o desempenho de teorias perniciosas ao coletivo, cuja utilização não almeja outra coisa senão enganar e convencer os ouvintes de uma mentira travestida de veracidade.
Violência a qualquer pessoa que exerça seu direito à escolha, seja qual área de sua vida isso se aplique (no caso citado, a opção sexual), é intolerável; discriminar e agredir uma mulher por um aborto cometido não vai originar justiça, apenas estenderá as conseqüências de uma atitude equivocada; são pontos de consenso entre as pessoas de bem. Não obstante, tentar manipular a opinião pública e a consciência moral dos cidadãos objetivando impor um modelo ético, com pretensões visivelmente político-partidárias, é ato grave e prejudicial à sobrevivência da democracia.

A luta pela igualdade e respeito às diferenças não significa empreender medidas destrutivas, contrárias ao livre pensamento e a divergência de pontos-de-vista. Se falar contra um padrão de conduta ou procedimento pessoal for motivo de punição e censura, sem que tenha havido humilhação ou ação criminosa, então de fato a democracia perdeu o sentido.

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