ENTRE MITOS, CÂNTICOS E ORIXÁS
Uma poética do feminino... Eis o primeiro semblante de Paó, espetáculo cuja narrativa gira em torno da sensibilidade de mulheres ante as situações da vida. A encenação foi criada por quatro atrizes virtuosas em busca de suas raízes identitárias nas personagens que compuseram (isso parece ficar claro nos seus depoimentos no programa distribuído), as quais reciprocamente, pela mágica teatral, emprestam as marcas vivenciais de suas criadoras e as reverberam em si. A Cia. Teatro do Fulô, um dos recentes grupos sorocabanos, une no elenco intérpretes de personalidade e compromisso elevado com o teatro e a pesquisa. Ana Antunes, Camila Rocha, Daiana Coelho e Vanessa Soares ousaram levar à cena as memórias coletivas da origem civilizacional brasileira, quando, juntando referenciais culturais oriundos de tradições étnicas distintas (até antagônicas), o povo brasileiro é “inventado” e se torna aos poucos nação plural. Vão ainda além: trazem os sinais incrustados nos seus corpos para, dialogicamente, harmonizar o real e o ficcional no espaço cênico.
Paó nos aproxima com delicadeza e vigorosidade de quatro individualidades que resplandecem referências antepassadas em suas carnes, nas atitudes e crenças a movê-las e impulsioná-las a transitar por momentos únicos e inapagáveis (como a morte de um filho) sem aventar a renúncia inerme do enfrentamento. As palmas elevadas, os cantos lúdicos, saúdam as entidades sagradas e irreverentes, na tentativa leal de dizer o indizível, de verbalizar o logos interior, sem possibilidade de tradução vernácula. Paó estabelece essas minúcias pelo jogo fortuito entre aspectos complementares da experiência vital, convertidas em expressões culturais: os ritos contam os mitos; os mitos conduzem aos ritos, tudo movido por algo de sagrado. Não há como descartar dos códigos cênicos o ecoar da voz da tradição, exprimida pelos signos da religiosidade, mais abrangentes do que uma doutrina ou credo particular. O povo aparece representado nos movimentos e falas das personagens sem pretender qualquer figuração narrativa; a noção de povo, impressa nas interpretações, é a mímesis da caminhada entusiasmante dos antepassados, mostrada não em palavras, mas pelo comparecimento dos corpos e intenções reavivadoras dessa identidade cultural. Nesse sentido vai o comentário da abertura deste escrito: as atrizes procuram as personagens em si próprias, e não em literaturas avessas à sua historicidade; o autoconhecimento se concilia com a “construção” da persona cênica, e esse processo intrainvestigativo se assenta sobre o exame da memória, que oferece a presença atualizada de eventos vividos, dos exercidos pelo sujeito nas ações passadas aos herdados pela convivência ou por estigmas arquetípicos.
Todos esses elementos são repercutidos simbolicamente pelos procedimentos espetaculares. O som feito ao vivo contextualiza a atmosfera mítica e os cantos e danças performáticas salientam a vida das mulheres e sua feminilidade, transformadas em poesia devido ao tipo de afecção despertado nos espectadores, certamente inebriante e sensível. As caixas usadas como mecanismo cenográfico possibilitaram uma suavidade agradável, e acabaram por não comprometer a fruição e as intelecções. Os pequenos contatos com o público proporcionaram um sentimento de familiaridade, embora o uso desse recurso não acrescente ou retire nada do todo da encenação, já conduzida desde o início por certo clima de misticismo popular. A indumentária situa ao mesmo tempo a territorialidade ancestral e a trivialidade mundana, ambas encarnadas e recuperadas a cada pulsar vital das personagens. Tudo, na simplicidade da composição, resultou em formidáveis ações de beleza inestimável, com lisuras e nuances realmente cativantes.
Quatro mulheres, quatro individualidades: única feminilidade, única busca. A visita consciente à consciência mesma (embora isso aparente redundância lingüística) por intermédio da aventura da autodescoberta é o retrato mais próximo daquilo pelo qual Paó se faz a cada cena, bem como suas luminosas intérpretes, provando com seu método arqueológico da memória que o teatro não acontece de fora para dentro, mas nasce exatamente do inverso, de uma intensa meditação acerca das escolhas reais e do curso das identificações componentes da personalidade. Todos os indicadores geram a incrível arte de viver, seja no teatro ou fora dele, e a recordação e aproveitamento das minúcias pessoais conferem um charme todo especial ao ofício de interpretar, repleto assim de força e vitalidade espiritual.
Paó não é oco e vazio; possui alma e valentia. O feminino que se constitui como poética da ancestralidade está diante de todos inclusive, e oportunamente, dos esquecidos de suas origens, alienados das raízes frutuosas de suas histórias. O aprendizado oferecido por essas quatro mulheres, entre mitos, cânticos e orixás, da responsabilidade consigo e sua descendência, impregnada na totalidade de cada indivíduo, é algo deveras indispensável e talvez urgente nos tempos de presenteísmo abusivo e despersonalizado.

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