Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







domingo, 9 de janeiro de 2011

Oito anos de Lula


Publicado no Jornal Diário de Sorocaba, em 30 de dezembro de 2010

No dia primeiro de janeiro, com a posse da presidente Dilma Rousseff, a era Lula chega ao fim. Será? O fenômeno “lulismo” parece ter seu lugar sedimentado no cenário político brasileiro, e seu espectro sempre permanecerá a rondar o Planalto e o imaginário popular, fomentado pelo maciço investimento midiático do PT e pelas ações governamentais que, se não solucionaram os reais problemas do país, pelo menos convenceram a maioria dos cidadãos disso.


Mas julgar o presidente Lula vai muito além da constatação de sua fama e popularidade. Cabe agora cogitar se seu governo foi tão esplêndido e mágico – conforme palavras próprias e de discípulos deslumbrados – como é pintado e reafirmado incessantemente pelo partido, aparentemente ratificado pela opinião pública.

Lula foi mais que presidente da República. Lula foi e continuará sendo um mito, dos mais arquitetados e expandidos vistos em terras brasileiras. E como todo o mito, sua força se sustenta pelo apelo imaginativo e sua correlação com alguns fatos perceptíveis, mas pouco provido de racionalidade. Todo aquele que sabe vender ilusões será aclamado pelas pessoas sedentas de sonhos e com esperança de um dia melhorar sua situação, o que não quer dizer em hipótese alguma a realização verídica dessa melhora.
Pensando seus oito anos na presidência, alguns feitos precisam ser ponderados. No plano administrativo, o governo teve altos e baixos: a economia cresceu, mas necessita de maior solidificação e menor nível de estatização de serviços, caso queira manter o mercado na condição favorável de investimento e ampliação; reconhecendo méritos na gestão, não se pode esquecer os prósperos anos no âmbito econômico mundial do qual o Brasil foi beneficiado. A vida das pessoas pouco mudou em termos de padrão efetivo, embora a oferta de empregos tenha crescido, acompanhando o fortalecimento da economia; mesmo o governo vociferando as tais 28 milhões de pessoas que ascenderam à classe C, isso não garante continuidade e qualidade de vida em longo prazo, haja vista que a concessão de crédito e o aumento do consumo geram endividamento e alto índice de inadimplência, e tocar nesses números sem levar em conta o modelo estatístico aplicado, que considera pequenos valores como revolução de status, é ter uma visão parcial e mal direcionada na verificação desse particular; fora a carga tributária recordista que o cidadão paga ao Estado nessa gestão. Na área social, o apelo à todo-poderosa Bolsa Família, transformada na maior plataforma eleitoral já testemunhada no pleito brasileiro, concede ajuda interminável a pessoas que poderiam muito bem receber oportunidade real de transformarem, por si próprias, sua situação socioeconômica com dignidade e independência A infraestrututa teve praticamente o mesmo investimento do governo FHC, e a educação e saúde caminharam a passos lentos, em alguns pontos até para trás. A segurança pública continua péssima, com seus mais de 40 mil homicídios anuais, e os crimes mais comuns e violentos ainda contam com a “colaboração” do fraco sistema judiciário e as parcas leis que sempre protegem o infrator e criminoso. Os escândalos de corrupção e afronta aos valores populares, como o Mensalão (maior esquema de compra de políticos já denunciado no país) e o PNDH 3 (incentivador da censura e da prática abortiva legalizada), foram notórios, abundantes e contundentes.

Todavia, avaliar o presidente Lula apenas por dados numéricos e tabela de acertos e erros é, no mínimo, uma simplificação pragmática da sua atuação na sociedade brasileira. Lula representou uma mudança drástica e permanente na mentalidade nacional ao colocar alguns dogmas revolucionários como princípios práticos gerais, velando suas conseqüências nocivas à democracia e a decência republicana. Seu partido chegou ao poder para ficar, e não pretende dividi-lo ou repassá-lo a ninguém. Nos dois mandatos, sindicalistas e outros colegas de Lula ocuparam em torno de 2 mil cargos de confiança, bem mais que governos anteriores, aumentando ainda mais os gastos públicos. As ligações obscuras entre o PT e as FARC, denunciadas e logo esquecidas, não foram esclarecidas a contento, e o narcotráfico deitou e rolou pelas fronteiras brasileiras sem nenhum impedimento efetivo.

Desde os primeiros anos de militância política, Lula e o PT tinham um objetivo basilar: destruir aos poucos e com sutileza as bases tradicionais e cultivadas pelo povo e estabelecer novo expediente político-ideológico favorecedor dos interesses dos ocupantes do poder. Isso já vem sendo implantado há pelo menos duas décadas pela ação do Foro de São Paulo, que reunindo militantes comunistas da América Latina, vinha agindo em sigilo para modificar radicalmente a orientação política e moral em favor da implantação de um sistema de governo autoritário e detrator, e tal organização teve como seu primeiro presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Ver “Lula, Dilma e seus companheiros” em http://www.daimonfilosofico.blogspot.com/).

Com Dilma Rousseff na presidência, juntamente com a velha-guarda petista, este esquema vai perseverar e expandir, cada vez mais cerceando direitos em surdina. A melhoria do país não deve, em hipótese alguma, calar a voz da verdade e da justiça, quando estas forem imperativas nos rumos sociais. Lula deixa o governo, mas não o poder, pois sua figura continuará sendo símbolo máximo do êxito de uma considerável etapa da hegemonia esquerdista brasileira e o maior ícone exortativo do triunfo final almejado por esta elite falsária a qualquer custo.

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