Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







sábado, 11 de dezembro de 2010

O emburrecimento da juventude


Publicado no Jornal Diário de Sorocaba, em 27 de novembro de 2010


Há pouco tempo comemorou-se o Dia Nacional da Juventude no Brasil. Foram várias as manifestações celebrativas desta data, e certamente não faltaram nos discursos proferidos menções honrosas a movimentos juvenis de caráter filantrópico e a repercussão de ações construtivas de cunho social, por iniciativa de jovens. Contudo, tão importante quanto celebrar a juventude, é pensar como ela se encontra no mundo contemporâneo, e isso não acarreta algo animador. Com exceção dos jovens mais conscientes, comprometidos com a sua formação intelectual e moral, a juventude de modo geral está emburrecendo gradativamente, vitimada pelo descaso de autoridades para com o seu desenvolvimento integral e pelos produtos “culturais” decadentes dos quais são consumidores vorazes.

Se comparados às gerações anteriores, os jovens de hoje deixam muito a desejar. Não conseguem se unir a causas maiores que seus interesses momentâneos, nem enxergam um horizonte cuja amplitude os inclua como sujeitos autônomos e sem amarras para decidirem suas vidas. Não conseguem diferenciar aquilo que pode ajudá-los a superar o lugar-comum do comportamento juvenil, do que tende a afundá-los cada vez mais, com crescente rapidez e intensidade, na lama da mediocridade e da conduta estereotipada. Não há, com tanta freqüência ou envolvimento, as organizações estudantis, comunitárias e religiosas para lutar pela justiça, liberdade e pela solução de algum problema, pelo simples fato da falta de ideais a defender, bem como a escassez de vontade em se empenhar por qualquer coisa alheia ao seu mundo interno fechado e quase inacessível aos outros.

Com isso, não se quer negar a mudança temporal necessária em prol do sustento de conservadorismo desdenhoso ou pessimismo anacrônico, apenas ressaltar a contínua degeneração da mente jovem, tão promissora e rica de esperança, em favor da substituição abusiva por ideias e valores servis à doutrinação depreciativa feita por grupos e práticas sociais altamente ilusórias, como o consumismo licencioso e as opiniões alienantes, espalhadas aos montes entre os meios ocupados pelos jovens.

Culpar apenas a juventude é um ato de injustiça. A sociedade como um todo permitiu no decorrer dos anos que uma série de ideólogos e oportunistas invadisse o cenário juvenil e corrompesse a mente das crianças e adolescentes. Programas de televisão, músicas de baixa qualidade, costumes e modismos, são responsáveis pela invasão de informações de baixa qualidade crítica no âmbito da dita cultura juvenil, e isso, no decorrer das décadas, tem formado uma juventude débil e racionalmente limitada. Exemplos não faltam: seus ídolos são bandidos e viciados; suas personalidades estão situadas entre as sensações imediatas e os delírios grandiosos de ser quem não podem e não são, uma mistura doentia e heterônoma; leitura ou reflexão é o mesmo que nada, o vocabulário bastante limitado compõe-se de palavras e frases superficiais, bem como o pensamento supérfluo induzido pelos “formadores de opinião” do universo teen, e falar em autodidatismo é perda de tempo; seus julgamentos são elaborados (quando o são) com base em clichês televisivos e frases feitas de bandinhas de gravadora e astros instantâneos. Outrossim, farsantes em abundância, inseridos em instâncias de alcance direto deste público (educação, política, cultura), são altivos colaboradores do projeto de emburrecimento da juventude, amanhã adultos alienados e sem força para fazer nada de favorável por si e pelos semelhantes.

Falta à sociedade se envolver mais com os rumos da juventude daqui pra frente, interagindo de maneira consciente e engajada no processo formativo destes que serão o futuro da humanidade, e isso significa batalhar desde já para que eles saibam construir sua autonomia com consciência, responsabilidade e inteligência voltada para o bem e a verdade. E aos jovens leitores deste modesto artigo, que a visão contida nestas linhas não seja motivo de desânimo ou aborrecimento, e sim uma provocação para estremecer o comodismo de uma vida insignificante e intelectualmente empobrecida, cujo propósito não é outro senão encaminhá-los para o fundo do poço da futilidade e da frustração.