O emburrecimento da juventude
Publicado no Jornal Diário de Sorocaba, em 27 de novembro de 2010
Publicado no Jornal Diário de Sorocaba, em 27 de novembro de 2010
Há pouco tempo comemorou-se o Dia Nacional da Juventude no Brasil. Foram várias as manifestações celebrativas desta data, e certamente não faltaram nos discursos proferidos menções honrosas a movimentos juvenis de caráter filantrópico e a repercussão de ações construtivas de cunho social, por iniciativa de jovens. Contudo, tão importante quanto celebrar a juventude, é pensar como ela se encontra no mundo contemporâneo, e isso não acarreta algo animador. Com exceção dos jovens mais conscientes, comprometidos com a sua formação intelectual e moral, a juventude de modo geral está emburrecendo gradativamente, vitimada pelo descaso de autoridades para com o seu desenvolvimento integral e pelos produtos “culturais” decadentes dos quais são consumidores vorazes.
Se comparados às gerações anteriores, os jovens de hoje deixam muito a desejar. Não conseguem se unir a causas maiores que seus interesses momentâneos, nem enxergam um horizonte cuja amplitude os inclua como sujeitos autônomos e sem amarras para decidirem suas vidas. Não conseguem diferenciar aquilo que pode ajudá-los a superar o lugar-comum do comportamento juvenil, do que tende a afundá-los cada vez mais, com crescente rapidez e intensidade, na lama da mediocridade e da conduta estereotipada. Não há, com tanta freqüência ou envolvimento, as organizações estudantis, comunitárias e religiosas para lutar pela justiça, liberdade e pela solução de algum problema, pelo simples fato da falta de ideais a defender, bem como a escassez de vontade em se empenhar por qualquer coisa alheia ao seu mundo interno fechado e quase inacessível aos outros.
Com isso, não se quer negar a mudança temporal necessária em prol do sustento de conservadorismo desdenhoso ou pessimismo anacrônico, apenas ressaltar a contínua degeneração da mente jovem, tão promissora e rica de esperança, em favor da substituição abusiva por ideias e valores servis à doutrinação depreciativa feita por grupos e práticas sociais altamente ilusórias, como o consumismo licencioso e as opiniões alienantes, espalhadas aos montes entre os meios ocupados pelos jovens.
Culpar apenas a juventude é um ato de injustiça. A sociedade como um todo permitiu no decorrer dos anos que uma série de ideólogos e oportunistas invadisse o cenário juvenil e corrompesse a mente das crianças e adolescentes. Programas de televisão, músicas de baixa qualidade, costumes e modismos, são responsáveis pela invasão de informações de baixa qualidade crítica no âmbito da dita cultura juvenil, e isso, no decorrer das décadas, tem formado uma juventude débil e racionalmente limitada. Exemplos não faltam: seus ídolos são bandidos e viciados; suas personalidades estão situadas entre as sensações imediatas e os delírios grandiosos de ser quem não podem e não são, uma mistura doentia e heterônoma; leitura ou reflexão é o mesmo que nada, o vocabulário bastante limitado compõe-se de palavras e frases superficiais, bem como o pensamento supérfluo induzido pelos “formadores de opinião” do universo teen, e falar em autodidatismo é perda de tempo; seus julgamentos são elaborados (quando o são) com base em clichês televisivos e frases feitas de bandinhas de gravadora e astros instantâneos. Outrossim, farsantes em abundância, inseridos em instâncias de alcance direto deste público (educação, política, cultura), são altivos colaboradores do projeto de emburrecimento da juventude, amanhã adultos alienados e sem força para fazer nada de favorável por si e pelos semelhantes.
Falta à sociedade se envolver mais com os rumos da juventude daqui pra frente, interagindo de maneira consciente e engajada no processo formativo destes que serão o futuro da humanidade, e isso significa batalhar desde já para que eles saibam construir sua autonomia com consciência, responsabilidade e inteligência voltada para o bem e a verdade. E aos jovens leitores deste modesto artigo, que a visão contida nestas linhas não seja motivo de desânimo ou aborrecimento, e sim uma provocação para estremecer o comodismo de uma vida insignificante e intelectualmente empobrecida, cujo propósito não é outro senão encaminhá-los para o fundo do poço da futilidade e da frustração.

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