Quem eleger?
Em tempos de eleição, é sempre adequado refletirmos os termos da participação popular na decisão do futuro político – e consequentemente econômico, cultural, etc. – do país, haja vista as prerrogativas democráticas pertencentes ao cidadão e por ele legitimadas em cada pleito.
Norberto Bobbio define democracia como “um conjunto de regras que consentem a mais ampla e segura participação da maior parte dos cidadãos, em forma direta ou indireta, nas decisões que interessam a toda coletividade”. Pensando assim, podemos interrogar se a qualidade do agir democrático está na mesma proporção da adesão quantitativa, ou seja, se o cidadão é suficientemente politizado a ponto de fazer do direito de interferir nos rumos da comunidade política uma efetiva contribuição social.
Sobre isso, as dúvidas a respeito do destino do voto são apontadas em primeira mão como matéria de debate e esclarecimento. Em quem votar é a questão que muitos eleitores se colocam, e no geral acabam por escolher seus candidatos com base em justificativas arbitrárias. Entendo que a pergunta certa a se fazer, antes mesmo de resolver em quem votar, seria a seguinte: como eleger?
Ao eleitor consciente e responsável cabe examinar quais os critérios para eleger alguém, e isso passa pela avaliação objetiva do estado político atual e ponderação racional dos valores essenciais que solidificam a vida em sociedade, bem como suas correspondências no quadro referencial demonstrado pelos aspirantes ao executivo e legislativo. Depois dessa autoavaliação, serão mais certas e prudentes as sentenças.
Mas, para quem deseja partir de alguma pauta, cuja orientação colabore no despertar da consciência política, vale à pena recordar alguns detalhes indispensáveis no curso das eleições. Não se trata de uma receita estática e dogmática, e sim de pontos necessários que compõe a prática da democracia direta:
1) Em primeiro lugar, ao acompanhar a campanha dos candidatos, é bom reparar com cuidado nas propagandas e se fazer três questionamentos: o que os políticos dizem de si mesmos, o que dizem uns dos outros e qual a verdade indiciada pelos fatos. Lembrando a função da propaganda de convencer mediante estratégia de enaltecimento, sem manchas e contradições, a inteligência precisa estar atenta para não se enganar com qualquer “fala encantada”.
2) Permita que a realidade torne evidente o empreendimento político efetuado. Dizer uma porção de obras feitas e mostrar rostos sorridentes não serve para expressar todas as nuances do processo de transformação social, nem as inúmeras estatísticas fabulosas apresentadas são certezas absolutas, dignas de fé total. Olho na realidade e confronto com as informações mostradas até o último instante.
3) Considere as prioridades do bem comum. Não venda o voto em troca de “favores” estatais que privilegiem poucos ou uma parcela da população em detrimento do todo. Um programa de governo que se preze visa engendrar oportunidades para todos os interessados em adquirir autonomia, e não cede pequenos benefícios exclusivos com o objetivo inconfundível de ganhar compensações ulteriores.
4) Veja se o projeto político e os ideais partidários são coerentes com o discurso e a práxis do candidato. Aliás, tenha bom conhecimento dos princípios ideológicos dos partidos, assim como a sua atuação histórica. Há muitos lobos com pele de cordeiro espalhados pelo vasto Brasil, justo portanto que sejam desmascarados e execrados pelas pessoas de bem.
5) Pesquise com apuração detalhada a história pessoal e política dos candidatos. Saiba com amplitude qual o perfil daquele por quem você se interessa em votar. Lembre-se de que os jornais, as revistas e sobretudo a internet são meios convenientes de consulta.
Com essas medidas, e outras ainda melhores, podemos nos munir de instrumentos e precauções para exercermos nossa contribuição de forma autêntica e comprometida com a pátria. Nada é mais notável do que um povo de bom senso e ligado pelo espírito de unidade, pronto a fazer o melhor pelo coletivo, com plena convicção daquilo que quer e livre de qualquer amarra intelectual e social cuja força iniba o exercício pleno da cidadania.

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