Uma palavra sobre o caso Neymar
Não sou cronista esportivo nem comentarista de futebol, mas me concedo o direito de expor um ponto de vista sobre a ocorrência que ganhou enorme notoriedade no meio jornalístico nos últimos dias: o comportamento arredio do jogador Neymar. Todos acompanharam o ato de rebeldia passional do atleta santista para com o técnico Dorival Júnior, somado a outros momentos de agressividade e falta de companheirismo. Essa sequência de fatos negativos envolvendo o jogador suscitou inúmeras opiniões, a maioria de reprovação. O mais áspero de todos foi o comentário de René Simões, ao chamar Neymar de mal-educado e afirmar, categoricamente, que o futebol está criando um monstro.
Francamente não me surpreendo com tamanha polêmica, e acredito que a repercussão desse caso deva se estender para um nível mais profundo de reflexão. A atitude de Neymar demonstra claramente a falta de limites e preparo do jovem na atualidade, vítima direta da postura omissa e permissivas dos “doutores da lei” e governantes. No Brasil, onde reina uma política de complacência sob a égide da formação cidadã, a negligência para com a constituição de caráter, incluindo no seu bojo o reconhecimento necessário de possibilidades e limitações, torna-se cada vez mais uma patologia social. Os responsáveis pelas diretrizes legais e morais (a última bastante escassa quando se trata do bem do povo brasileiro) não permitem à juventude cultivar responsabilidade pelas suas ações, e dessa forma conseguem criar uma lacuna abissal entre os modos de aferição comportamental: leis rígidas para o adulto e demais flexíveis para os jovens.
Na minha pouca experiência profissional na educação, constato um diagnóstico deprimente e triste, o qual pode muito bem ser relacionado ao acontecido com o craque Neymar: jovens superficiais, desregrados, tomados por futilidades e acometimentos egocêntricos, e a causa maior disso é a falta de base educacional familiar e de recursos constitucionais de cobrança para exigir postura adequada e respeitosa. O ECA, embora contribua na prevenção e proteção da criança e do adolescente, na prática gerou uma discrepância entre direitos (em excesso) e deveres (parcos); não leva em conta a formação de um autêntico sujeito social, íntegro e consciente daquilo que lhe é assegurado e das suas obrigações. A falta de equilíbrio e constância deteriora a personalidade de qualquer indivíduo, fazendo-o cativo de paixões e privilégios e sem o mínimo senso de autoavaliação. Neymar não é o único culpado pelo ocorrido, embora não possa ser eximido dos seus erros. Ele também é fruto da crise da autoridade, fundadora do hábito de desrespeito e da aversão pelas referências de valor, porção inegável no aprimoramento ético de qualquer pessoa.
Aquém da punição conferida pelo Santos à Neymar, vale ressaltar a preocupação com o futuro dessa juventude, perdida em meio a tantas artimanhas sedutoras e impulsos infantis. Negligenciar os rumos das ações educativas e a degeneração juvenil crônica é aprovar o surgimento de uma significativa quantia de “monstros” para afligir o esporte e toda a sociedade brasileira.

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