Vida longa ao Grupo Katharsis!
Publicado no site do grupo: http://www.grupokatharsis.com.br/
A dificuldade de grupos teatrais do interior paulista, em especial aqueles que se dedicam à pesquisa experimental, terem seus trabalhos integrados aos espaços de rotatividade de produções da capital, é uma constante a muito estabelecida. São nesses espaços, localizados principalmente nas universidades e centros culturais, que se torna possível a visibilidade das criações artísticas para um público especializado (além dos espectadores em geral, obviamente) e para a imprensa dedicada à crítica estética, o que confere aos referidos locais de exibição, prestigiados pela mais alta casta de intelectuais e artistas de renome, a condição de meios de legitimação de qualidade.
Isso se dá por pelo menos duas razões. A primeira refere-se ao nível dos trabalhos que são realizados pelos grupos interioranos, muitos sem qualificação e base conceitual que sustentem a proposta materializada em espetáculo. A falta de formação teatral mais apurada e experiência sólida e consolidada no fazer teatral podem ser o fator principal ausente no processo criativo. A segunda, tão ou mais cáustica, diz respeito aos direcionamentos políticos e artimanhas de bastidores – pouco transparentes portanto – sempre mordazes, apesar de sutis, que ordenam os conluios e escolhas de comissões e julgadores para apreciar determinados grupos e companhias em detrimento de outros que permanecem afastados e distantes do cenário cultural de grande prestígio. Dessa forma, devido a conchavos entre dirigentes da cultura e os “protegidos” com alto grau de efetividade na estada do entretenimento, muitos trabalhos realmente dignos de valorização ficam “a ver navios” e são desacreditados de algum dia agregar à confraria dos iluminados. Somado a isso, a inépcia de vários artistas para com os instrumentos legais de angariação de fundos de incentivo e de como tornar acessível um projeto de valor cultural considerável, derrotam por completo as chances de inserção em espaços de referência.
Felizmente, a arte encontra seus caminhos, e a dedicação, coragem e seriedade ainda conseguem romper barreiras consideradas intransponíveis. O Grupo Katharsis, da Universidade de Sorocaba, completando vinte anos, prova que vale a pena investir na pesquisa e na exploração de probabilidades diferenciadas de fazer o teatro acontecer. O mais recente espetáculo dos “kathárticos” (apelido dado aos atores pelos próprios), Astros, patas e bananas, conquistou a oportunidade de ser apresentado em temporada no TUSP (Teatro da Universidade de São Paulo), escolhido dentre 63 montagens concorrentes. A comissão julgadora selecionou o Katharsis por unanimidade, e no mês de junho o espetáculo poderá ser conferido na capital. O mesmo espetáculo foi bastante elogiado por críticos, entre os quais Valmir dos Santos e Alexandre Mate, e ganhou o prêmio oferecido pela Cooperativa Paulista de Teatro, referente ao ano passado, de Melhor Espetáculo do Interior e Litoral, algo verdadeiramente notável e producente.
O Katharsis não chegou por politicagem ou boa vontade de terceiros, mas por mérito e capacidade coletiva. Sou suspeito para falar, já que até o final de 2009 era integrante do grupo e participei da criação de Astros..., mas afirmo com entusiasmo e apreço a importância e consistência da investigação sobre linguagem cênica empreendida pelo grupo, tanto que essa postura radical e consciente de busca por caminhos não convencionais de realizar teatro me cativou e motivou a querer me somar ao elenco.
O responsável maioral pelo impulso dessa empreitada (não único responsável, como o referido salienta, pois todo o grupo se sente partícipe da pesquisa) é o professor e diretor teatral Roberto Gill Camargo, vulgo Gill, que com maestria racional, rigorosidade científica e sensibilidade poética, concentrou sua inteligência no cultivo de um procedimento artístico ancorado em estudos interdisciplinares consistentes e na vivência e ponderação de anos de carreira bem sucedida. São cúmplices nesta empreitada: Andréia Nhur (também pesquisadora em dança), Douglas Emílio, Fabiana Souza, Gui Martelli, Luiz Esparrachiari, Paola Bertolini e Robson Roso, sem esquecer a mestra Janice Vieira na direção musical, acompanhada recentemente por seu filho e igualmente músico Ramon Vieira. Outros passaram e contribuíram, a seus modos, no processo. Digo cúmplices de propósito, pois esse trabalho guarda o toque da subversão, e se coloca a percorrer a trilha da contramão em relação às montagens em circulação de avantajada repercussão, pelo menos em expressão midiática.
A guinada do convencional para a experimentação deu-se há cinco anos, quando o grupo montou um espetáculo intitulado Endoscopia, chamado de teatro-conferência por se dedicar à investigação das entranhas do teatro, daquilo que o estrutura como tal. Concluiu-se no decurso que o teatro realizado até então (salvaguardadas as devidas exceções) nutria uma distância quase insolucionavel entre a dramaturgia, entendida aqui como texto escrito, e a encenação. O teatro parece surgir a partir de acúmulos de peças distintas cujo encaixe formata uma composição única, no entanto repleta de dissonâncias internas. Gill comenta essa impressão: “Esta experiência ‘endoscópica’ revelou nitidamente haver um espaço separando texto e cena. O texto parecia algo coagulado, como um cristal cheio de energia eletromagnética armazenada, sem possibilidade de estabelecer trocas com o ambiente. Primeiro o texto, depois a cena, cinco dias, dez anos, vinte e cinco séculos depois, ou coisa assim.” (Processos cênicos coevolutivos, p.1). Desde então o grupo se voltou para a tentativa de sanar esse nicho entre texto e cena, e a “solução” (nada acabado evidentemente) foi o abandono do texto escrito e a co-criação da dramaturgia com a encenação, ambas indissociáveis desde o princípio. Essa dinâmica propicia e salienta uma das primeiras exigências dos trabalhos feitos pós-2005: a negação de levar ao palco uma ilustração de qualquer enredo de historinhas prévias. Após esse espetáculo, o grupo iniciou a trilogia da teatralidade, tendo a referida por objeto principal de conhecimento, a qual formaliza e define com clareza e maturidade a linha de pesquisa: o primeiro foi Aves, ovos e parafusos, durante três anos premiado em vários festivais; a seguir, Água, luz e clorofila, momento de revisão e melhoria da fundamentação teórica da linguagem; encerrando, em 2009, Astros, patas e bananas, com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura do município de Sorocaba, donde reside o grupo.
O teatro proposto pelo Katharsis não se detém na demonstração de repertório cênico tradicional, inusitado ou incomum, ou de outras variantes esperadas. Começa a modificar a concepção da cena já na resolução de um método de criação alternativo ao protocolar, instaurado há bastante tempo. Ou seja, o espetáculo não surge da leitura de um texto dramatúrgico previamente estudado e debatido, cuja encenação se dará a partir das diretrizes possíveis de serem tomadas de acordo com as “exigências” do material literário, mas ele “aparece” de forma processual sem ter por trás de si qualquer roteirização prévia. O grupo não parte de um texto pronto; não há falas decoradas de antemão, nem rubricas ou qualquer tipo de antecedente que venha a limitar os intérpretes; também se descarta esquemas semelhantes ao canovaccio da Commedia dell’Arte, onde constavam as principais ações a serem desenvolvidas livremente pelos cômicos. Existem apenas os corpos, com todo o seu potencial performático (vale lembrar desde já que a concepção adotada pelo grupo não assume a perspectiva cartesiana do dualismo entre a res extensa e a res cogitans; corpo e mente são inseparáveis) e o jogo no espaço nu, pronto a servir para a intencionalidade dos atores, e é aí que ideias e ações são cunhadas espontaneamente, afiadas ao labor dos intérpretes-criadores.
Essa forma de pensar e fazer teatro não se pauta por determinações: prima por possibilidades. O texto é livremente criado no mesmo encejo em que a iluminação é experimentada, o figurino é provado e reprovado, as falas em off e objetos são inseridos e retirados, a música incidental é composta. A simultaneidade no processo de criação, presente desde os primeiros ensaios e geradora da interatividade constante e imbricada entre os elementos, faz o método de trabalho. Assim afirma Gill: “As ideias, as personagens, os diálogos e a estruturação da narrativa deveriam surgir no palco, com os atores a postos, com os músicos de prontidão para as intervenções sonoras, com os figurinos e objetos à mão e com o iluminador atento à operação de luz. Tudo deveria participar do mesmo exercício de criação dramatúrgica, utilizando para isso os procedimentos habituais de qualquer processo de criação, tais como escolhas, associações, comparações, supressões, combinações, oposições, elipses, substituições, etc.” (Ibid., p.2). Este é o denominado processo cênico coevolutivo, baseado no conceito de coevolução delineado por Ehrlich e Raven a partir da teoria evolutiva sedimentada por Darwin, que postula a interseção processual de elementos geradores de novas cadeias e estados. Assim o teatro pode ser visto: um trânsito interminável de matérias, percepções, energias, interposições de todos os teores, cujo resultado configura-se no palco como troca informativa complementar e gênese de sentido, surgido pela combinação voluntária e involuntária destas inúmeras mônadas doadoras de qualidades particularizadas.
Não se trata, porém, de um teatro privado de condução e aprimoramento técnico. Contrariamente, há supervisão rígida e autocrítica por parte do diretor, dos músicos e dos atores, todos certos da importância fundamental desse exercício para a excelência final da produção. O colaborativo aqui é tomado no sentido sóbrio – tal como deve acontecer – de contribuição ativa dos agentes envolvidos no processo de criação, sem, contudo, abrir mão da função específica que cabe a cada integrante. Aliás, o ofício do grupo é colaborativo necessariamente, pois a sua concretização se dá pelo envolvimento de intérpretes-criadores, e não por via unilateral imposta pelo encenador. Ninguém dita o procedimento ou manda executar ordens alheias. Sugestões e propostas são inseridas como força motriz de algo novo a surgir, e se esse algo não encontrar refúgio no desenrolar da montagem é retirado sem culpa.
Mesmo conduzido e avaliado, o processo inicia com os corpos em cena sem qualquer imposição antecipada e prescrições ulteriores. O corpo é a origem criadora, pois ele “empresta” as informações orgânicas para, junto às interferências do ambiente, compor aquilo que se chama de personagem, embora o Katharsis não admita no seu conjunto a noção realista de personagem, imbuído de precedentes psicológicos e detalhamentos históricos, mas lida com o surgimento de personas (não identificada com o intérprete) oriundas das múltiplas e transitórias relações cuja proposição origina-se e pertence ao desempenho cênico do ator-criador, o corpo vivo em contínuo contato e troca com tudo o que compartilhar com ele a espacialidade no palco. Nasce a dramaturgia do ator, e pela suas descobertas e intercâmbios o sentido brota livre das ações, e não de ideias à parte.
Essas ponderações deixam a desejar quando o objetivo é conceituar a linguagem cênica apresentada pelo Grupo Katharsis. E palavras não dão conta de comunicar a totalidade dessa experiência teatral altamente complexa. Ficam a espreitar as mínimas percepções aprazíveis e sequiosas de contemplar, sempre uma vez mais, o espetáculo primoroso feito por um elenco primoroso. Astros, patas e bananas, atual obra de arte com a qual somos brindados, estimula a viajar pelos recônditos do sonho e faz, no mesmo instante, enxergar a realidade por ângulos pouco ortodoxos, e toda essa magnitude se apresenta ao alcance dos interessados em apreciar tal mosaico de beleza e expressividade. Espero que por muito tempo os espetáculos do Gill e seus parceiros possam nos fazer sentir a gratificação de estar na platéia para admirar a genialidade humana. Esse é o desejo de todo amante do bom teatro. Vida longa ao Katharsis!

1 comentários:
Obrigado por toda a força que tem nos dado! Depois que assisti ao filme da Chanel, "Coco antes de Chanel", pude compreender um pouco sob o lugar político do Grupo Katharsis. Veja!
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