O que esperar de 2010?
Publicado no Jornal Diário de Sorocaba em 07 de janeiro de 2010
Publicado no Jornal Diário de Sorocaba em 07 de janeiro de 2010
Todo encerramento e recomeço do ciclo anual coloca diante de nós a oportunidade de fazer uma espécie de balanço sobre a vida, refletindo sobre as decisões tomadas e omitidas, os acontecimentos marcantes para o bem e para o mal, as peripécias entusiasmadoras e detestáveis, as frustrações e as alegrias desfrutadas, e tantas outras experiências são levantadas com o fim de obter, mediante a revisão cônscia e ponderação valorativa, uma renovação catártica para, livre de culpa e nostalgia, adentrar o ano seguinte com disposição e entusiasmo. Nesse clima de novidade à vista, a mudança de ano suscita bons presságios, comemorações – onde se deseja que o ano novo traga tudo de bom – e uma série de empreendimentos pretendidos, desejados para o ciclo seguinte, dentre os quais destacam-se as promessas, umas modestas, de fácil execução, e algumas complicadas de se cumprir, requerentes de maior dedicação e renúncia. Aguardadas as benfeitorias, espera-se do ano nascente a as chances de efetivar os planos particulares.
Mas o êxito do ano não está no próprio ano, no tempo corrente e demarcado. A única dependência necessária para a vinda de acontecimentos venturosos é da própria consciência engajada na tarefa de fazer acontecer na vida pessoal o melhor possível, de acordo com a precisão real e o objetivo focado, e isso não se resume à uma mentalização funcional ou a condicionamentos meramente corriqueiros e sem reverberação verdadeiramente existencial. Destarte, o primeiro passo no caminho para conseguir se comprometer inteiramente está em alterar a ordem da pergunta: não o que nós podemos esperar de 2010, mas o que 2010 pode esperar de nós.
Não se trata de mera inversão retórica, apenas forja uma perspectiva diferenciada. Partindo do indivíduo e não dos fatos a porvir, o ponto de partida para conquistar (ou melhor, evocar) coisas boas para si consiste em trazer, de si próprio, o preparo e a força exigidas na travessia da existência e disso constituir um indivíduo fortalecido e disposto a enfrentar qualquer obstáculo ou incógnita. No exemplo deixado pelos grandes místicos e sábios, nas tradições espirituais, religiosas, filosóficas, tradições de idade milenar, somos impelidos a buscar, antes de algum ganho acidental ou efêmero, a lapidação do “eu” em sintonia com os anseios mais profundos que brotam da experiência humana, sendo esses também caminhos oferecidos aos corações destemidos e ardorosos. Isso só se concretiza na medida em que se mergulha nas entranhas do ser, interligado com o conhecer-se, sem o qual não se pode realmente discernir nada de verdadeiro e bom.
Autoconhecimento e melhoramento interior: primeira meta a se alcançar, e ela não acontece pela obrigação de corresponder a um feito prometido no réveillon. As realizações procuradas à deriva da transformação integral do sujeito, como soluções a pronta entrega, não geram frutos de amadurecimento e acabam por se resumir a meros ingredientes intersticiais, momentâneos e isolados, dissociados da fragilidade e das aspirações mais profundas. Os objetivos almejados, quaisquer que sejam, não podem ser postos como bens a adquirir durante o transcorrer do ano, alheios aos designos pessoais, alienados da vida real. Devem constar nas aquisições progressivas da peregrinação persistente e compenetrada pelos recônditos da interioridade. Daí faz sentido maior a vontade de renovação, pois renovar-se é preciso, no entanto só pode acontecer de dentro para fora e não o contrário.
O maior compromisso de ano novo carece ser o aperfeiçoamento da consciência e das atitudes. O crescimento individual garante o bem coletivo e inspira os convivas a construir valores essenciais para viver dignamente, aproximando a felicidade (a legítima felicidade) de cada um.
Que 2010 receba de nós contribuições sólidas e perenes, fruto do avivamento espiritual, da revigoração dos ideais e do refinamento de caráter, disposições estas certamente encontradas em pessoas notáveis e diligentes, prontas a entrar de cara e com coragem na etapa inédita que irão vivenciar. Possamos nós igualmente desfrutar de tão salutar presença de espírito.

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