Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Aos estudantes que se vão!

Palavras dedicadas aos formandos 2009 da Escola Estadua Hélio Del Cistia (Sorocaba/SP)


O poeta Casimiro de Abreu traduziu em versos uma verdade existencial certeira. Diz ele para iniciar o poema Meus oito anos:

“Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!”

Se o poeta, imbuído de nobre saudosismo, se remete ao passado no seu presente para reviver, ainda que pela memória, sua afortunada vida infantil, ele o faz, certamente, sem negligenciar os anos vindouros, ainda por marcar a alma com outras emoções e qualidades a serem rememoradas com não menos nostalgia. Quando se reflete o passado, alegre ou triste, se faz mediante a experiência individual de alguém que recorda no presente, e estar no presente é também, de certa maneira, pertencer ao futuro, esse incerto mas aprazível “lugar temporal” pelo qual cada pessoa pode se realizar nas diversas etapas de sua vida. Um desapego, porém, tem de acontecer para essa transição ocorrer sem traumas ou arrependimentos, qual seja, a certeza da ruptura com determinada situação vivida e irrepetível. Você hoje, concluindo o ensino básico, rompe de uma vez a passagem pela escola, e a consciência desse fato único deve servir como alerta e preparo para o que há de vir pela frente.

Este é o anúncio definitivo: é chegada a hora de partir!

Não há palavras acertadas para confortar os sofredores ou emocionar os eufóricos. Algo estranho vai acontecer: ao cruzar os portões da escola, você estará despindo-se da veste de estudante secundário para sempre, sem chance de regresso, e irá se deparar com um mundo novo de possibilidades. As vivências carnais e espirituais ocorridas nas salas de aula, nos intervalos, na diretoria e nas outras dependências pelas quais você transitou, serão apenas lembranças arquivadas na consciência, até se transformarem em pura força etérea a ir desaparecendo no tempo. As amizades que você conquistou, os professores com quem conviveu (e brigou ... e xingou ... e se afeiçoou), as zoeiras e aprontadas memoráveis, as provas e os trabalhos, as lições feitas e não feitas, as desculpas esfarrapadas para conseguir driblar uma possível reprova, os funcionários, os projetos... tudo, absolutamente tudo, ficará para trás. Restará apenas você e o futuro.

Diante disso, muitos saltarão de alegria, e talvez se dêem conta desta drástica mudança em anos vindouros. Outros já sentirão essa nova condição de imediato, e perceber a natureza disso certamente causará angústias e – se a coisa for encarada com seriedade exagerada – pânico. Mas essa “dor da separação” do passado confortável para uma nova etapa ainda a desbravar deve ser vista com otimismo, pois trata-se de uma oportunidade inédita de existência na liberdade, com a chance de apresentar-se diante de caminhos até então ignorados; de poder escolher rumos ousados para seguir vivendo, rumos amparados unicamente pela responsabilidade por si mesmo. Não haverá uma escola para “ditar” o que fazer, os prazos para fazer, as consequências de não fazer. Tudo isso será estabelecido por você. Professor para orientar? Não, ele não estará com você. Diretor com medidas punitivas? Esquece! Sobra apenas suas decisões e iniciativas. Está preparado (a), jovem?

Uma pergunta se interpõe no seu caminho: você está pronto para deixar a escola?. Esta pergunta evoca o histórico de opções realizadas, medos e desejos que cada estudante guarda dentro de si. Se a resposta for SIM, significa um grau de maturidade atingido, um porto seguro a garantir uma boa partida para a viagem à vida adulta. Entretanto... se for NÃO ou TALVEZ, significa apenas uma coisa: é hora de agir em prol de si e confrontar os medos e incertezas numa reflexão decisiva que norteie seu destino daqui por diante. Seu destino é selado, em grande medida, pelas suas escolhas e tomadas seguras de decisões. Escolha acertada aproxima a felicidade um pouco mais de cada pessoa, somente possível pela iniciativa individual com êxito, ou quando o erro de uma atitude tomada serve como oportunidade de autoconhecimento e retomada do agir. Diz Santo Agostinho, em relação ao pecado, que o importante não é lamentar o pecado cometido mas ter força e persistência para levantar e continuar a caminhada na intenção de ser bom. Algo semelhante aplica-se nessa ponderação: cada passo dado, mesmo o equivocado, pode servir de trampolim para o salto mais alto e longilíneo em direção à horizontes novos e instigantes.

Jovem, não permita que a sua passagem pela escola seja empobrecida com anseios imediatistas de encerramento da “chatice das aulas” ou qualquer coisa parecida com isso. Aproveite a chance de reconhecer, na sua longa trajetória dentro desta instituição, os momentos cruciais e marcantes da sua experiência de vida. A escola é parte de você e nunca deixará de ser. Sua vida é a somatória das vivências experienciadas nas mais singulares ocasiões, cujo resultado unifica-se espontaneamente na travessia da existência, causando satisfações, surpresas e demais sentimentos claros e contraditórios. Neste meio, a escola representa o primeiro momento existencial da procura e descoberta da identidade, da paulatina conquista da individualidade, da transição do vínculo familiar excessivo até a agonia pela independência e desligamento do berço paterno e materno; na fase estudantil, dentro da escola, você começa a saber quem você é.

Não há muito mais a dizer. As palavras não são suficientes na expressão das emoções sentidas. Deixo por fim os meus votos sinceros e esperançosos de ver você realizado na sua vida, feliz e próspero de acordo com aquilo que almejar ser. Nunca deixe de batalhar pelo que julga justo e verdadeiro. Procure inesgotavelmente a sabedoria; apaixone-se por ela. Tenha valores e suportes espirituais confortadores e de nobreza engrandecedora. Enfim, busque crescer, amadurecer, e não desperdice jamais as oportunidades de rememorar a sua vivência escolar. Lembre-se: é a sua história, da qual todos nós (professores, gestores, colegas de turma ou de outras salas, funcionários) partilhamos.

Até algum dia!


Prof. Michel F. Valverde
EE Hélio Del Cistia
Novembro de 2009

Carta de uma estudante

Esta carta foi escrita a meu pedido por Daniella Detoni Moraes, estudante concluinte do Ensino Médio no ano de 2008. Quando visitei seu blog (grayheaven.blogspot.com) me deparei com uma gratificante surpresa ao perceber, imbuido de admiração, o talento para a escrita dessa jovem. Pedi que escrevesse uma carta de incentivo aos meus alunos, exortando-os a buscarem horizontes mais ousados, a prosseguirem nas trilhas do conhecimento. Ela, muito gentilmente, atendeu-me sem demora. Partilho aqui, para todos aqueles jovens aturdidos por dúvidas, a sua mensagem. A você, Daniella, os meus mais sinceros agradecimentos.




Aos alunos do Prof. Michel Valverde,

Gostaria de saber um pouco mais detalhadamente sobre vocês antes de começar a escrever, mas sendo algo complicado de acontecer nesse momento, me contento em restringir tal introdução à minha mera apresentação. Meu nome é Daniella, muito prazer. Moro em Valinhos e tenho agora dezoito anos. Terminei o ensino médio ano passado e ao longo deste ano tenho dado o melhor de mim para que eu possa realizar em breve um dos meus maiores sonhos: cursar Letras na Universidade de São Paulo. Sim, Letras. Já perdi a conta de quantas pessoas me questionaram, abismadas: “Mas você quer ser professora?”. Nunca entendi o que há de tão errado nisso e confesso que ver a reação das pessoas ao ouvirem um “E porque não?” pulando pra fora da minha boca ao responder essa pergunta é um tanto quanto desalentador.
Alguns dos meus amigos, quando souberam que eu não havia sido aprovada na segunda fase da fuvest me disseram: “Mas ano que vem você vai prestar Jornalismo, não é? Já que vai fazer cursinho, preste alguma coisa mais reconhecida. Você daria uma ótima jornalista”. Fiquei triste nesse dia. Não exatamente pelo fato de meu amigo ter dito-me que, pra ele, aquilo que eu quero fazer pelo resto da minha vida é algo completamente sem valor, mas sim por ter sido obrigada a reconhecer que pouquíssimas pessoas correm atrás daquilo que realmente lhes proporciona júbilo e inspiração.
Sendo sincera, não trago comigo uma carga tão grande de experiências a ser compartilhada com vocês, visto que nossa diferença de idade, se é que ela existe, deve ser de uma pequenez insignificante. Entretanto, minha curta vivência já foi capaz de me apresentar alguns dos mais valiosos princípios que ao certo devo destacar dos demais como sendo prioritários, e entre eles se encontra aquele que me proíbe de posicionar qualquer tipo de imposição ou busca por aceitação social acima das minhas próprias realizações e ambições pessoais, da minha felicidade e aspiração por conhecimento.
Desde muito nova eu me interessei pela leitura, pelos cadernos de caligrafia e confesso que até mesmo pelas redações ao estilo “Minhas Férias” que toda criança algum dia já teve que fazer a contragosto. E essa simpatia pelo mundo das letras foi crescendo dentro de mim gradualmente. Até que, quando tinha doze anos, li pela primeira vez Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. E por mais inacreditável que possa parecer, eu me encantei. Agora me digam, se alguém aqui já leu Werther, como pode uma criança de doze anos se encantar com tamanho amontoado nada atrativo de letras lamuriosas e feias? Não ter a resposta pra essa pergunta me aborrecia, e foi a partir de então que comecei a me afogar em livros até o pescoço em busca de respostas. E tenho conseguido até os dias de hoje. Porém, é uma sede que não cede, essa vontade de saber mais e mais criou raízes dentro de mim. Mas ironias à parte, felizmente nós possuímos uma boa relação de mutualismo.
“Afinal - talvez pensem vocês – o que essa garota quer dizer com tudo isso?” Bom, se levarmos ao pé da letra, eu não quero dizer nada, só vim até vocês contar um pouco sobre a minha paixão pelas Letras. Entretanto, a minha mensagem vai um pouquinho além disso. Obviamente, não escrevo essas palavras com o intuito de convencer ninguém a gostar daquilo que não lhe convém. Afinal, ninguém até hoje me convenceu a gostar de matemática e palavras não transformam afinidades. Contudo, ainda que muitos de vocês possam ter aversão à gramática, literatura e suas derivações, é pouco provável que não exista algum anseio maior dentro de cada um de vocês por alguma especificidade que valha a pena ser estudada. Tudo vale a pena ser estudado, e vale muito. E mesmo que você tenha dúvidas sobre o que te traz a verdadeira inspiração, ou ainda que você seja completamente indiferente quanto a isso, todos os dias podem ser o dia em que essa perspectiva se ampliará. Além do mais, poucas coisas são consideradas mais gratificantes do que adquirir sabedoria através de si próprio, impelido por um desejo maior. E como já diria Hermann Hesse, em Sidarta: sabedoria não é algo que se possa partilhar por palavras, não é algo comunicável. E caso seja dita, sempre cheirará a tolice. Convenhamos, ele sabia muito bem do que estava falando...

Espero que com essas ágeis palavras possa ter-lhes acrescentado algo que seja de fato proveitoso e com os melhores agradecimentos, subscrevo-me com muita consideração.

Daniella Detoni Moraes

“Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores; caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los. Se orientarmos a nossa vida segundo aquele princípio que nos aconselha a nos aferrarmos sempre ao que é difícil, o que agora nos parece ser muito estranho se tornará o que há de mais familiar e confiável” – Rainer Maria Rilke.