Palavras dedicadas aos formandos 2009 da Escola Estadua Hélio Del Cistia (Sorocaba/SP)
O poeta Casimiro de Abreu traduziu em versos uma verdade existencial certeira. Diz ele para iniciar o poema Meus oito anos:
“Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!”
Se o poeta, imbuído de nobre saudosismo, se remete ao passado no seu presente para reviver, ainda que pela memória, sua afortunada vida infantil, ele o faz, certamente, sem negligenciar os anos vindouros, ainda por marcar a alma com outras emoções e qualidades a serem rememoradas com não menos nostalgia. Quando se reflete o passado, alegre ou triste, se faz mediante a experiência individual de alguém que recorda no presente, e estar no presente é também, de certa maneira, pertencer ao futuro, esse incerto mas aprazível “lugar temporal” pelo qual cada pessoa pode se realizar nas diversas etapas de sua vida. Um desapego, porém, tem de acontecer para essa transição ocorrer sem traumas ou arrependimentos, qual seja, a certeza da ruptura com determinada situação vivida e irrepetível. Você hoje, concluindo o ensino básico, rompe de uma vez a passagem pela escola, e a consciência desse fato único deve servir como alerta e preparo para o que há de vir pela frente.
Este é o anúncio definitivo: é chegada a hora de partir!
Não há palavras acertadas para confortar os sofredores ou emocionar os eufóricos. Algo estranho vai acontecer: ao cruzar os portões da escola, você estará despindo-se da veste de estudante secundário para sempre, sem chance de regresso, e irá se deparar com um mundo novo de possibilidades. As vivências carnais e espirituais ocorridas nas salas de aula, nos intervalos, na diretoria e nas outras dependências pelas quais você transitou, serão apenas lembranças arquivadas na consciência, até se transformarem em pura força etérea a ir desaparecendo no tempo. As amizades que você conquistou, os professores com quem conviveu (e brigou ... e xingou ... e se afeiçoou), as zoeiras e aprontadas memoráveis, as provas e os trabalhos, as lições feitas e não feitas, as desculpas esfarrapadas para conseguir driblar uma possível reprova, os funcionários, os projetos... tudo, absolutamente tudo, ficará para trás. Restará apenas você e o futuro.
Diante disso, muitos saltarão de alegria, e talvez se dêem conta desta drástica mudança em anos vindouros. Outros já sentirão essa nova condição de imediato, e perceber a natureza disso certamente causará angústias e – se a coisa for encarada com seriedade exagerada – pânico. Mas essa “dor da separação” do passado confortável para uma nova etapa ainda a desbravar deve ser vista com otimismo, pois trata-se de uma oportunidade inédita de existência na liberdade, com a chance de apresentar-se diante de caminhos até então ignorados; de poder escolher rumos ousados para seguir vivendo, rumos amparados unicamente pela responsabilidade por si mesmo. Não haverá uma escola para “ditar” o que fazer, os prazos para fazer, as consequências de não fazer. Tudo isso será estabelecido por você. Professor para orientar? Não, ele não estará com você. Diretor com medidas punitivas? Esquece! Sobra apenas suas decisões e iniciativas. Está preparado (a), jovem?
Uma pergunta se interpõe no seu caminho: você está pronto para deixar a escola?. Esta pergunta evoca o histórico de opções realizadas, medos e desejos que cada estudante guarda dentro de si. Se a resposta for SIM, significa um grau de maturidade atingido, um porto seguro a garantir uma boa partida para a viagem à vida adulta. Entretanto... se for NÃO ou TALVEZ, significa apenas uma coisa: é hora de agir em prol de si e confrontar os medos e incertezas numa reflexão decisiva que norteie seu destino daqui por diante. Seu destino é selado, em grande medida, pelas suas escolhas e tomadas seguras de decisões. Escolha acertada aproxima a felicidade um pouco mais de cada pessoa, somente possível pela iniciativa individual com êxito, ou quando o erro de uma atitude tomada serve como oportunidade de autoconhecimento e retomada do agir. Diz Santo Agostinho, em relação ao pecado, que o importante não é lamentar o pecado cometido mas ter força e persistência para levantar e continuar a caminhada na intenção de ser bom. Algo semelhante aplica-se nessa ponderação: cada passo dado, mesmo o equivocado, pode servir de trampolim para o salto mais alto e longilíneo em direção à horizontes novos e instigantes.
Jovem, não permita que a sua passagem pela escola seja empobrecida com anseios imediatistas de encerramento da “chatice das aulas” ou qualquer coisa parecida com isso. Aproveite a chance de reconhecer, na sua longa trajetória dentro desta instituição, os momentos cruciais e marcantes da sua experiência de vida. A escola é parte de você e nunca deixará de ser. Sua vida é a somatória das vivências experienciadas nas mais singulares ocasiões, cujo resultado unifica-se espontaneamente na travessia da existência, causando satisfações, surpresas e demais sentimentos claros e contraditórios. Neste meio, a escola representa o primeiro momento existencial da procura e descoberta da identidade, da paulatina conquista da individualidade, da transição do vínculo familiar excessivo até a agonia pela independência e desligamento do berço paterno e materno; na fase estudantil, dentro da escola, você começa a saber quem você é.
Não há muito mais a dizer. As palavras não são suficientes na expressão das emoções sentidas. Deixo por fim os meus votos sinceros e esperançosos de ver você realizado na sua vida, feliz e próspero de acordo com aquilo que almejar ser. Nunca deixe de batalhar pelo que julga justo e verdadeiro. Procure inesgotavelmente a sabedoria; apaixone-se por ela. Tenha valores e suportes espirituais confortadores e de nobreza engrandecedora. Enfim, busque crescer, amadurecer, e não desperdice jamais as oportunidades de rememorar a sua vivência escolar. Lembre-se: é a sua história, da qual todos nós (professores, gestores, colegas de turma ou de outras salas, funcionários) partilhamos.
Até algum dia!
Prof. Michel F. Valverde
EE Hélio Del Cistia
Novembro de 2009
