Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Carta de uma estudante

Esta carta foi escrita a meu pedido por Daniella Detoni Moraes, estudante concluinte do Ensino Médio no ano de 2008. Quando visitei seu blog (grayheaven.blogspot.com) me deparei com uma gratificante surpresa ao perceber, imbuido de admiração, o talento para a escrita dessa jovem. Pedi que escrevesse uma carta de incentivo aos meus alunos, exortando-os a buscarem horizontes mais ousados, a prosseguirem nas trilhas do conhecimento. Ela, muito gentilmente, atendeu-me sem demora. Partilho aqui, para todos aqueles jovens aturdidos por dúvidas, a sua mensagem. A você, Daniella, os meus mais sinceros agradecimentos.




Aos alunos do Prof. Michel Valverde,

Gostaria de saber um pouco mais detalhadamente sobre vocês antes de começar a escrever, mas sendo algo complicado de acontecer nesse momento, me contento em restringir tal introdução à minha mera apresentação. Meu nome é Daniella, muito prazer. Moro em Valinhos e tenho agora dezoito anos. Terminei o ensino médio ano passado e ao longo deste ano tenho dado o melhor de mim para que eu possa realizar em breve um dos meus maiores sonhos: cursar Letras na Universidade de São Paulo. Sim, Letras. Já perdi a conta de quantas pessoas me questionaram, abismadas: “Mas você quer ser professora?”. Nunca entendi o que há de tão errado nisso e confesso que ver a reação das pessoas ao ouvirem um “E porque não?” pulando pra fora da minha boca ao responder essa pergunta é um tanto quanto desalentador.
Alguns dos meus amigos, quando souberam que eu não havia sido aprovada na segunda fase da fuvest me disseram: “Mas ano que vem você vai prestar Jornalismo, não é? Já que vai fazer cursinho, preste alguma coisa mais reconhecida. Você daria uma ótima jornalista”. Fiquei triste nesse dia. Não exatamente pelo fato de meu amigo ter dito-me que, pra ele, aquilo que eu quero fazer pelo resto da minha vida é algo completamente sem valor, mas sim por ter sido obrigada a reconhecer que pouquíssimas pessoas correm atrás daquilo que realmente lhes proporciona júbilo e inspiração.
Sendo sincera, não trago comigo uma carga tão grande de experiências a ser compartilhada com vocês, visto que nossa diferença de idade, se é que ela existe, deve ser de uma pequenez insignificante. Entretanto, minha curta vivência já foi capaz de me apresentar alguns dos mais valiosos princípios que ao certo devo destacar dos demais como sendo prioritários, e entre eles se encontra aquele que me proíbe de posicionar qualquer tipo de imposição ou busca por aceitação social acima das minhas próprias realizações e ambições pessoais, da minha felicidade e aspiração por conhecimento.
Desde muito nova eu me interessei pela leitura, pelos cadernos de caligrafia e confesso que até mesmo pelas redações ao estilo “Minhas Férias” que toda criança algum dia já teve que fazer a contragosto. E essa simpatia pelo mundo das letras foi crescendo dentro de mim gradualmente. Até que, quando tinha doze anos, li pela primeira vez Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. E por mais inacreditável que possa parecer, eu me encantei. Agora me digam, se alguém aqui já leu Werther, como pode uma criança de doze anos se encantar com tamanho amontoado nada atrativo de letras lamuriosas e feias? Não ter a resposta pra essa pergunta me aborrecia, e foi a partir de então que comecei a me afogar em livros até o pescoço em busca de respostas. E tenho conseguido até os dias de hoje. Porém, é uma sede que não cede, essa vontade de saber mais e mais criou raízes dentro de mim. Mas ironias à parte, felizmente nós possuímos uma boa relação de mutualismo.
“Afinal - talvez pensem vocês – o que essa garota quer dizer com tudo isso?” Bom, se levarmos ao pé da letra, eu não quero dizer nada, só vim até vocês contar um pouco sobre a minha paixão pelas Letras. Entretanto, a minha mensagem vai um pouquinho além disso. Obviamente, não escrevo essas palavras com o intuito de convencer ninguém a gostar daquilo que não lhe convém. Afinal, ninguém até hoje me convenceu a gostar de matemática e palavras não transformam afinidades. Contudo, ainda que muitos de vocês possam ter aversão à gramática, literatura e suas derivações, é pouco provável que não exista algum anseio maior dentro de cada um de vocês por alguma especificidade que valha a pena ser estudada. Tudo vale a pena ser estudado, e vale muito. E mesmo que você tenha dúvidas sobre o que te traz a verdadeira inspiração, ou ainda que você seja completamente indiferente quanto a isso, todos os dias podem ser o dia em que essa perspectiva se ampliará. Além do mais, poucas coisas são consideradas mais gratificantes do que adquirir sabedoria através de si próprio, impelido por um desejo maior. E como já diria Hermann Hesse, em Sidarta: sabedoria não é algo que se possa partilhar por palavras, não é algo comunicável. E caso seja dita, sempre cheirará a tolice. Convenhamos, ele sabia muito bem do que estava falando...

Espero que com essas ágeis palavras possa ter-lhes acrescentado algo que seja de fato proveitoso e com os melhores agradecimentos, subscrevo-me com muita consideração.

Daniella Detoni Moraes

“Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores; caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los. Se orientarmos a nossa vida segundo aquele princípio que nos aconselha a nos aferrarmos sempre ao que é difícil, o que agora nos parece ser muito estranho se tornará o que há de mais familiar e confiável” – Rainer Maria Rilke.

2 comentários:

Daniella disse...

Oh. Não há motivo algum pra que eu me chateie. Sinto-me é honrada por ter tido essa oportunidade e pelo imenso incentivo que recebi. Me desculpe por não passar mais vezes por aqui, o tempo é realmente curto quando resolvemos correr atrás dos sonhos, não?

Boas festas pra você também e um ótimo 2010. :)

Um beijo!

Luiz Esparrachiari disse...

Está ótimo! Parabéns a sua aluna, Michel! Você deveria encaminhar essa carta ao Ilmo. Sr. Governador. Quem sabe assim ele entende o desprezo que as pessoas têm pela carreira docente.