Lazer, Cidade e Turismo: Reflexões
Publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 24 de novembro de 2009
Publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 24 de novembro de 2009
No meu artigo anterior, publicado neste caderno (Turismo e ludicidade: a redescoberta do urbano, em 01/09/09), propus uma leitura da cidade enquanto potência e fonte de interatividade criativa, sendo o lúdico – jogo sensorial e imaginativo travado com os outros e o ambiente, em que se desfruta convivência e inúmeras descobertas e surpresas – a forma pela qual cada indivíduo pode recriar a sua experiência, muitas vezes banalizada ou julgada como trivial, na busca de um olhar distinto sobre a realidade urbana.
Para tanto, proponho aprofundar um pouco mais a articulação dessas entidades através de algumas considerações realizadas por Raquel Rolnik no artigo O lazer humaniza o espaço urbano, e Juan Carlos Mantero no texto Turismo e lazer.
Raquel Rolnik aponta que, no mundo moderno, a oposição entre lazer e trabalho não é tão clara, afinal, muito das atividades exercidas pelo indivíduo para adquirir melhor qualidade de vida (frequentar academias por exemplo) contém boa dose de trabalho. Rolnik questiona se o espaço urbano favorece ou prejudica a apreciação do tempo livre, pois com o desenvolvimento espacial mediante tecnologias e planejamentos (ou a falta deles) criam-se impecilhos para a fruição, e a cidade parece ter de fragmentar os lugares de lazer.
O lazer, encarado como elemento motivacional da vida social, toma grande sentido para a vida em sociedade na medida em que, não só contribui com a socialização, mas associa-se intransferivelmente com a busca de qualidade de vida. Diferente da visão de lazer como consumo de prazer, o que o restringiria a alguns locais delimitados como fornecedores de diversão e relaxamento, o lazer “encarnado na cidade” como diz Rolnik não pode resumir-se a meios de proporcionar prazer segmentados em pontos díspares e isolados. Agiria, sim, enquanto agente privilegiado de vitalidade. O problema é a diluição da proporção política da cidade, que fazia dela o ambiente de convívio e interatividade por excelência, para se tornar a cada dia um depósito de segmentos privados e com interesses não mais coletivos – a dimensão pública se esvai na prevalência dos guetos fechados. Diz a autora: “A dimensão pública vai perdendo cada vez mais sua dimensão política de contrato social e acaba reduzindo-se à administração do trânsito, da rede de água e de esgoto etc. Na verdade, o espaço público vai diminuindo ao ser capturado e privatizado, restando apenas e tão somente aquele necessário para a circulação de mercadorias, inclusive das mercadorias humanas; esvazia-se a dimensão coletiva e o uso multifuncional do espaço público, da rua, do lugar de ficar, de encontro, de prazer, de lazer, de festa, de circo, de espetáculo, de venda. Assim, funções que recheavam o espaço público e lhe davam vida migraram para dentro de áreas privadas, tornando-se, em grande parte, um de espaço circulação.” Rolnik, por fim, percebe que, aliado à políticas públicas eficientes para retomar a característica da cidade de encontro das diferenças e aproximação de indivíduos, o lazer é um instrumento capaz de viabilizar esse intento.
Juan Carlos Mantero, por sua vez, levanta como eixo de aproximação entre o turismo e o lazer a cidade, o espaço público potencialmente favorável para atividades lúdicas, e exalta o tempo livre (que não considera oposto radicalmente ao trabalho) enquanto motor dessa iniciativa, permeadora não só de indivíduos isolados mas também, e até em maior proporção, de toda a sociedade. Considera o seguinte: “Se em nossa sociedade persiste uma concepção conformista que tende a reivindicar para o lazer funções individuais, pessoais, como descansar, distrair-se e desenvolver-se, há também quem mantenha uma posição crítica que vê no lazer, no uso do tempo livre, uma funcionalidade social, uma forma de atenuar, de diminuir, de reduzir as disfunções sociais.” Elenca três ações possíveis de serem feitas no tempo livre – o descanso, o lazer e a criação – e sugere a articulação dessas, sobretudo do lazer e da criação, à vida urbana, cuja essência é o convívio das diferenças. Sendo assim, nada melhor que práticas de interatividade, principalmente as de cunho ocioso (no bom sentido do termo) para salientar este espaço público, de todos, e promover encontros programados e aleatórios. Isso, para Mantero, faz da cidade um porto acolhedor: “O espaço da cidade, isto é, o espaço do fluxo e das necessidades diferenciadas de habitar, de circular, de divertir-se e de trabalhar, constitui o cenário e a paisagem de convivência dos habitantes desse lugar; cria as oportunidades de confluência, de fluxo e de presença das pessoas sem exclusões; representa uma proposta aberta de práticas sociais genuínas de expressão cultural, não só de nossa geração mas também das gerações que se sucederam através dos tempos. O espaço público, onde as pessoas transitam e se locomovem, é também o âmbito de interação social que se expressa nas praças, nos lugares de encontro e troca, nas áreas verdes – lugares de uso e desfrute do natural – e nos espaços de testemunho, os lugares de identidade e de patrimônio, raramente explorados”.
Feitas essas reflexões, pode-se extrair algumas conclusões imediatas:
1) O lazer faz do meio urbano um lugar de humanização – relação de indivíduos sem determinar fins recompensadores para alguma parte, exceto as satisfações naturais provenientes das interações gratuitas;
2) O Turismo propicia novos relacionamentos – gera troca de informações e percepções, conduzindo a exercícios sensoriais e de cognição indispensáveis para o desenvolvimento integral do indivíduo;
3) O Turismo deve reconhecer no espaço urbano o lugar do convívio das diferenças, ao mesmo tempo visando momento de fruição e apreciação de identidades, presentes no interior deste espaço e responsáveis, em grande medida, pela sua definição. Cabe aproveitar esse reconhecimento para investir em estratégias que venham a contribuir no contínuo aprimoramento humano.

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