Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Crítica Teatral

O ENCONTRO DE BOB WILSON E HEINER MÜLLER


Quem pôde prestigiar o espetáculo Quartett, encenação do renomado diretor americano Robert Wilson (ou Bob Wilson, como é chamado), certamente se sentiu privilegiado por ver um espetáculo refinado em detalhes e com interpretações maduras e nada espalhafatosas. O espetáculo esteve em São Paulo, no SESC Pinheiros, entre os dias 12 a 16 de setembro, apresentado posteriormente em Porto Alegre nos dias 23 e 24 do mesmo mês. Trazia como protagonistas Isabelle Huppert e Ariel Garcia Valdés, além de Rachel Eberhart, Michel Beaujard e Benoit Maréchal completando o elenco virtuoso, escolhido a dedo pelo diretor texano.

É difícil falar de Quartett sem sofrer constantes rupturas no pensamento, sendo que tais fragmentações na estratégia racional de descrição e ordenamento são precisamente a motivação implícita nas obras teatrais de Wilson, para não afirmar, seu objetivo central. As encenações de Bob Wilson não estão para o lógos e sim para o pathos; nada escapa à presença do espectador que, sentado diante da cena, está vulnerável à sua impetuosidade visual, convidativa à introspecção estética. A plasticidade e a duração das impressões, ocasionadas pela justaposição de imagens e ações, são marcas intransferível do teatro de Wilson, um teatro arquitetado pela montagem autoral do encenador. Seus espetáculos são criados com ênfase na própria espetacularidade do teatro, ou seja, independente da estrutura literária. A palavra, tomada como integrante de um quadro maior de recursos, corporifica ainda mais a força cênica do concreto, da materialidade e da forma com que esta aparece. Toda expressividade forjada nas cores, nos gestos precisos e lapidados, no som e na cenografia planejada, não se situam no lugar-comum dos efeitos especiais, mas pressiona continuamente a percepção ativa e focada a se dispor a cada instante para uma nova gama de informações provocadas, sem contudo partir para a imposição da “leitura” (pensada como narrativa). Heiner Müller, a respeito do trabalho realizado peloTeatro Nacional Francês Odéon-Théâtre de l’Europe de Paris, fala de Wilson com desprendimento: “De certa maneira o americano Robert Wilson liberou o teatro europeu da obrigação da “ilustração naturalista.” Nas suas obras, ele encena sonhos. Nos sonhos quase sempre aparecem textos já ouvidos – digamos citações. Nos sonhos sempre faltam as transições e as razões para o próximo passo. E isso é o que constitui o teatro. O teatro delineia uma contra-realidade. Outra realidade além desta da qual as pessoas vem e para a qual elas vão.” Aliás, o programa do espetáculo guarda diversas correspondências entre o autor e o diretor ao longo de pelo menos duas décadas, o que evoca uma atmosfera intimista e interssubjetiva entre eles. Wilson também comenta as obras de Müller: “As peças de Heiner Müller são esplêndidas porque não foram escritas de uma maneira pela qual nos sentimos obrigados a entendê-las. É como Shakespeare. Não podemos entender “Hamlet”. Existem muitas possibilidades de entendê-lo. Hoje é isto e aquilo, mas na próxima noite será completamente diferente. É muito bom ler Müller, porque é simplesmente grande poesia – mas destes textos não se pode fazer música, pois a música já está ali.” Ambos colocam, cada qual ao seu propósito, uma incógnita ao teatro contemporâneo quando deslocam-no da sua confecção “clássica” (convencionada e tradicional) para a aventura ousada da ruptura, a ponto de Hans-Thies Lehmann elegê-los, no seu livro Teatro pós-dramático, como precursores, entre outros, do denominado por ele “pós-dramático”, uma renovação cênica e de seus fundamentos ocorrida a partir da década de 70.

Quartett retrata os conflitos e contradições de um casal, Valmont e Merteuil, imbuídos de matizes emocionais e fragilidades nocivas, embriagantes e corrosivas. O relacionamento e seus percalços é desvelado em gradação sutil, cuja consequência direta é o rompimento de todos os escrúpulos, com os desejos e dores despejados. Na fina interpretação dos atores, as neuroses das relações afetivas entre as personagens, recheadas de contrassensos e descompassos, vêm à tona pela crise do casal (ou será da instituição casamento?), que imprime, de maneira alternada, os sofrimentos de uma decepção e a tortura motivada pelo amor, talvez desgastado ou apenas exibidor de uma face monstruosa que se realiza na pobre contingência, desencantada e fria. Difícil assistir o espetáculo sem se remeter à gama de conjecturas envolventes do social e do desejo, das prescrições e da libido, da ilusão romântica e da emotividade passional. Quarttet provoca no espectador a angústia de querer jogar, e as regras desse jogo são dadas não pelo texto, por si só eloquente, mas pelos códigos criados pelo encenador, no qual as palavras ganham novo dimensionamento, sobretudo pelo distanciamento empregado por Isabelle Huppert e Ariel Garcia Valdés. Ademais, pode-se destacar a iluminação, um dos pontos fortes do projeto cênico de Wilson. Nos seus espetáculos – e em Quarttet não é diferente – luz é dramaturgia, e as variações de cores materializa estados sensoriais concomitantes ou discrepantes à cena; a beleza visual como um todo afeta o público de formas inesperadas. Os gestos compostos pelos atores, bem lapidados, tinham no detalhe a sua força maior, juntamente com os recortes e mobilidades sígnicas provenientes do conjunto tecnicamente afinado e perfeito, o que não obriga a cena ser redundante, haja vista a transladação insistente entre a repetição quase previsível e as sonoridades e outros efeitos não integrados, deixando margem para a fuga da linearidade.

Os atores também brincam com as personagens, ou melhor, com as personas, não identificadas com Isabelle e Ariel mas transitórias entre eles, sem com isso caricaturar a interpretação. Valmont e Merteuil são intercalados pelos protagonistas, enquanto o restante do elenco pontua certas intenções subtextuais, exacerbando sentimentos ditos ou velados via ação física. O painel criado é o de uma explosão libidinosa refletida na violência moral cometida entre o casal, donde transita a fina ironia entre uma agressão e outra, ironia voltada para a sociedade avessa à animosidade irascível, por ser verdadeira. Sobra aos humanos, mortais e efêmeros, a inópia daquele desejo coletivo a realizar-se em cada indivíduo: a felicidade. Não é possível ser feliz, realizar-se no desejo (idealizado ou contingente), vivendo entre sombras e hipocrisias, sem coragem de encarar com decisão e abrandamento o espelho, revelador da miséria e da degradação progressiva de mentes doentias e alienadas.

Bob Wilson e Heiner Müller: um encontro no mínimo interessante. Nas atrações e nas repulsas, um diz e desdiz o outro, e nessa dialética confrontadora do político e do estético, do sagrado e do profano e de oposições consolidadas pelo dualismo cultural, a obra de arte acontece. A nós – público, vítimas, cúmplices – cabe somente o deleite das nossas próprias contradições.

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