Que a diversão e a distração dos afazeres rotineiros fazem parte do turismo é indiscutível. Toda opção alheia às obrigações diárias acabam por despertar o desejo e a vontade de esvaziar as tensões e as responsabilidades, oriundas das exigências externas, para dar vazão às necessidades vitais mais elementares presentes na interioridade. O relaxamento, a alegria e a descontração são condições salutares de uma vivência mais plena e revigorante, o que gera maior interesse pelas possibilidades de exercer atividades distintas daquelas já estipuladas, ao mesmo tempo fazendo destas não um desgosto contínuo, mas uma parte potencializadora de novas oportunidades.
Escapa, porém, à percepção comum, que esta relação entre o lúdico e o turismo é mais complexa e benfazeja do até aqui imaginado. O lúdico no turismo não é adendo casual ou pura consequência lógica de atividades programadas e executadas; é, sob certa condição, o seu possibilitador e sua força maior. Ou seja, o lúdico não se alia ao turismo para concretizar com êxito uma ação, ele age como parte ativa do turismo, de modo a não ser possível uma separação. Ludicidade é necessidade quando se fala em turismo, e a compreensão desse intrincado vínculo permite um salto para longe da superficialidade compulsória, redutora de todas as situações a mercadorias em potencial.
Lúdico refere-se ao jogo. A diversão está ligada à manifestação livre dos indivíduos que, de acordo com seu estado e disposição, se põem a praticá-la livremente. Huizinga, importante pesquisador do assunto, afirma a presença do lúdico não como produto cultural, mas um elemento básico da formação da cultura, mostrando no seu conhecido trabalho Homo ludens a presença da ludicidade nos variados segmentos culturais. Por seu turno, Batista Mondin, no livro O que é o homem?, define o jogo como um desenvolvimento de atividades com vista à distração, ao divertimento, à satisfação e à realização de si mesmo. Mondin aponta no lúdico uma série de elementos complementares que o tornam uma dimensão essencial da existência humana, e esse inclui no seu bojo a satisfação imediata, a liberdade do exercício prazeroso, sem almejar outro bem senão o próprio prazer, a distração diante das turbulências cotidianas entre outros. Nesse ínterim, afirma Mondin: a dimensão lúdica compreende, efetivamente, inteligência e vontade, ação e habilidade, mas, ao mesmo tempo, supera o conhecer, o querer, o agir porque implica também em alegria, satisfação e liberdade.
Há detalhes que não podem passar despercebidos. O lúdico se refere, principalmente, ao jogo de percepções e impressões sensoriais, articulador substancial da relação entre realidade e imaginação. Nessa dinâmica revelam-se pelo menos três ingredientes fundamentais da sua constituição: a curiosidade (ativação da percepção), o descompromisso (contra a mecanização dos sentidos) e o envolvimento gratuito (atração desimpedida pelo que cativa a atenção). Tais ingredientes são principais na atividade turística, e por unirem a ludicidade a um planejamento forjado com objetivo predeterminado - no caso de uma viagem ou passeio organizado previamente - devem ser presença intencional e visceral em cada pessoa que se entrega a experienciar novos ares.
Com isso, anula-se o perigo da repetição e do tédio. Sempre a novidade se revelará aos olhos atentos e interessados. Para exemplificar, pode-se questionar se uma viagem a qualquer cidade do mundo pode valer a pena. A cidade pode ser atrativa? Ela própria é um bem a se vislumbrar ou o seu status imaginário o é? É viável sair do meu lugar para ver um lugar que tem os mesmos bens, com poucos detalhes diferenciais? A chatice de alguém pode chiar: para ver casas, ruas e prédios nem preciso sair daqui, vejo na minha cidade mesmo!. Contudo, é exatamente ao observar a criação humana, mesmo se tratando de algo comum à inteligência, com uma nova intenção e motivado pelas propriedades lúdicas já descritas, tudo muda e passa a interessar como fenômeno inédito. A procura deve se situar na esfera do jogo, ou seja, na vivência com intensidade de uma realidade paralela ao trivial, para assim gerar o divertimento na apreciação da realidade percebida que se faz nova a cada olhar curioso. O meio urbano revela o potencial humano de criar e recriar o seu mundo e produzir significados a cada instante. Constitui-se num laboratório de experimentações simbólicas com alto teor revelador, uma força provocadora de questionamentos sobre a existência concretizada.
Qualquer cidade, inclusive a sua, pode permitir essa interação lúdica, basta se convencer disso e se entregar ao deleite do jogo. E sempre vale a pena lembrar das crianças: elas conseguem transformar um tijolo numa nave interplanetária, e a calçada de suas casas na galáxia por onde viajar. Elas, com certeza, têm muito a nos ensinar.

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