Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







terça-feira, 1 de setembro de 2009

Imoralidades televisivas

A semana iniciada no dia 9 de agosto foi o palco de uma disputa patética protagonizada por duas grandes emissoras de televisão brasileiras, a Rede Globo e a Record, tendo como elemento propulsor a denúncia acerca das fraudes cometidas por Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, e mais nove pessoas a ele ligadas. Segundo noticiou a mídia impressa, televisiva e alguns sites na Internet, a 9ª Vara Criminal de São Paulo aceitou a acusação do Ministério Público, envolvendo o bispo Macedo e “os nove”, de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Conforme divulgado, Edir Macedo e seus comparsas teriam usado os donativos arrecadados pelos templos na compra de bens privados e na aplicação em empresas, sendo esse um dinheiro que deveria ser investido na manutenção das igrejas e em obras de cunho social. Uma das afirmações decorrentes e veiculadas na imprensa é a possibilidade da Rede Record ter sido comprada a partir desse esquema, disfarçada pelos meios tradicionais de falcatrua.

A Rede Globo divulgou a notícia no Jornal Nacional com grande ênfase, numa matéria de cerca de 10 minutos, exibindo não só os fatos recorrentes mas outros vídeos, já utilizados em ocasião semelhante no passado, que comprometeriam Macedo como uma espécie de explorador da boa vontade alheia. Nos tais vídeos, Edir Macedo ensina pastores a usar de retórica apelativa para extorquir dinheiro dos fieis, e faz outras orientações cujo conteúdo pareceria inadequado a qualquer líder espiritual.

Não demorou mais de dois dias para a Record, na sua programação noturna, dar o troco. Exibiu uma matéria, tão ou mais longa que a mostrada pela concorrente, cuja temática foi desvendar a intenção vil da Globo ao exibir tais acusações, num ataque direto e explícito ao monopólio Global e denunciando suas artimanhas manipulatórias já forjadas desde a época da sua fundação. Mostrou inclusive trechos de um documentário produzido pela BBC de Londres a mais de quinze anos, intitulado Muito além do Cidadão Kane, que comenta e dimensionaliza o poder da televisão na sociedade brasileira, enfatizando as tramas silenciosas feitas pelo “magnata” Roberto Marinho, as verbas que a emissora teria recebido ilegalmente do exterior, etc. Em suma, a Record acusa a Globo de perseguição invejosa devido a sua ascensão de audiência, além, é claro, de tentar defender a idoneidade do bispo.

Não pretendo expor detalhes dessa briguinha porque são bem conhecidos nossos, portanto frescos na memória. Apenas venho neste espaço privilegiado para demonstrar a minha repulsa pelo tratamento dado aos fatos. Uma denúncia dessa natureza, que abarca a legitimidade da fé, a generosidade de crentes esperançosos e o abuso criminoso de exploradores sem caráter, não pode servir de arma para um porco combate entre empresas de comunicação que se dignificam (e passam longe de ser) “éticas e isentas”. Se tudo será confirmado ou não é trabalho da justiça averiguar, mas as duas emissoras, tomando a efervescência do impacto dessa revelação de acordo com suas conveniências, conseguiram transformar um caso sério em balela leviana. A Globo inflacionou a ação do Ministério Público ao ponto de partir da divulgação da denúncia em si e concluir alfinetando a emissora concorrente. Por seu turno, A Record desviou a atenção do problema envolvendo membros do seu grupo com réplicas agressivas, jogando o espectador contra a rival sob a alegação de que esta deturpa a verdade e realiza campanha contra a Igreja Universal e o canal televisivo.

O teatro barato apresentado é mais uma amostra corriqueira do abuso que a mídia, comprometida apenas com seus interesses, pode cometer contra o uso da liberdade de expressão e da credibilidade jornalística. A distorção das mensagens seguem os mesmos padrões: um fato real é moldado arbitrariamente e transmitido segundo “critérios editoriais” pré-estabelecidos, fecundando a interpretação direcionada pela qual se consegue coibir divergências e uniformizar o julgamento pessoal à aferição falsificada. Assuntos polêmicos e de curiosidade geral são largamente formatados nesses moldes, e a população, merecedora de uma imprensa íntegra, acaba sendo parte de um jogo diabólico velado entre poderosas corporações fortificadas, exatamente, pela adesão cega da audiência. Tanto a Globo como a Record engendram esse mecanismo de aniquilamento do senso de responsabilidade social da informação; nenhuma é inocente. Não defendo Edir Macedo ou a Igreja Universal. Se houve um crime, consumado sob o falso pretexto religioso, a sociedade deve saber ao certo a gravidade e verdade dessa situação, pois ninguém tem o direito de usar a religião para enriquecimento próprio. Acredito, contudo, que os fieis da Universal mereçam maior respeito da parte dos comunicadores e diretores administrativos dos canais citados, aparentemente pouco preocupados com os valores e sentimentos desse povo, talvez as maiores vítimas dessa guerra imoral.

Diante de tamanho embuste mental, estar confuso e incerto é consequência previsível. Só resta aos telespectadores brasileiros tentar escapar dessa sina ou assistir, impotentes, aos capítulos ulteriores desta novela sem fim. Que Deus nos acuda!

1 comentários:

Tamys Jornalista disse...

A briga dessas grandes emissoras Globo e Record há anos é existentes, nós como telespectadores nada temos haver com essa briga, e o pior fomos obrigados a ver o vexame destas por vários dias. Diante disso os comunicadores sérios destas empressas deveriam rever os seus os principiod de livros de comunicação, e rever que o jornalismo sério deve ser feito com imparcialidade independentemente do que seja.