Este blog, criado e dirigido pelo professor Michel Farah Valverde, traz ideias, reflexões e demais informações referentes à filosofia, política, artes e educação. É destinado a todos os interessados, em especial aos jovens, estudantes ou não. Os textos publicados pelo autor podem ser usados, com a condição de que seja citada a fonte.







quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Fé ou Histrionismo?

A maioria das religiões ou manifestações de ordem religiosa encontrou, durante a história, oposição. Dificilmente passaram ilesas perante as mentes inquiridoras e os abutres solidários a elas mas sem tomar partido de nada. Entre os opositores, pode-se assinalar os aristocratas de gabinete, os teóricos racionalistas, os grupos de expressão restrita mas com ascendência social, agitadores e céticos. Dentre os tipos atuais, estão os membros da academia sem um pingo de conhecimento de causa (nunca leram uma linha de teologia) e os grupos “alternativos” menos dispostos a agir em nome de valores sólidos e mais voltados para a difamação em vista de prerrogativas políticas. Acredito, contudo, que a pior inimiga da religião no momento pode ser a própria religião.

Lidando com fatos, grandes concentrações públicas de fiéis têm sido promovidas ao longo dos últimos anos com o objetivo da vivência da crença de maneira mais intensa. A título de exemplo, a “Marcha para Jesus”, ocorrida no último dia 22 de novembro em Sorocaba, configura-se como um acontecimento de proporção internacional, congregando milhares de crentes de várias denominações para proporcionar louvações e o fortalecimento da religiosidade. Outras manifestações de procedência religiosa e semelhante estrutura ocorrem sem rara freqüência. A pergunta que não quer calar é a seguinte: esse tipo de “megaculto” é uma louvação de crentes ou a banalização do mistério divino? Quando faço esta pergunta, não quero depredar a liberdade religiosa ou difamar qualquer iniciativa. Não é uma crítica à religião em si ou ao movimento evangélico (posto que acontecimentos dessa natureza não são uma prioridade deste movimento e têm presença variada), apenas um questionamento dos pressupostos a ele agregados. A idéia de “show da fé” pode acarretar numa consideração errônea acerca do sentido da verdadeira experiência religiosa, algo bem diferente do que tem-se visto.

A questão crucial é tematizar a massificação da fé. Há cultuação desprovida de identidade religiosa profunda. Tudo fica na superficialidade das impressões sensíveis, o grande chamariz da lógica do mercado de produtos de massa, que está precisamente em fornecer fácil acessibilidade, baseada numa simplificação grosseira (para captação rápida) e no descartável (que não cria condição de aprofundamento). Daí a adesão de um grande contingente a uma religiosidade superficial, colocada sob padrões de entretenimento, exigente de manobras mercadológicas acentuadas e promotora de uma mentira cabalar: o exagero como sinônimo de qualidade, apresentada com forma exibicionista e fortemente marcada pelo esvaziamento de conteúdo.

Umberto Eco, estudioso do tema cultura de massa, escreve algo pertinente no seu livro Apocalípticos e Integrados: “A situação conhecida como cultura de massa verifica-se no momento histórico em que as massas ingressam como protagonistas na vida associada, co-responsáveis pela coisa pública. Freqüentemente, essas massas impuseram um ethos próprio, fizeram valer, em diversos períodos históricos, exigências particulares, puseram em circulação uma linguagem própria, isto é, elaboraram propostas saídas de baixo. Mas paradoxalmente, o seu modo de divertir-se, de pensar, de imaginar, não nasce de baixo: através das comunicações de massa, ele lhes é proposto sob forma de mensagens formuladas segundo o código da classe hegemônica.” Sem pretensões maiores de discutir o pensamento do autor italiano, apenas seu texto nos faz um alerta para considerar que muitas das expressões julgadas normais e benéficas podem ser simplesmente modelos usurpados de grandes corporações (e certamente as agrada ter seus padrões reproduzidos) cuja finalidade está longe de ser a de elevar o espírito humano. Ao contrário, desejam prender o espírito a fórmulas engenhosas de abdução de si.

Resta questionar: será em meio a espetáculos faraônicos e exaltações emotivas o lugar da espiritualidade? Os mestres religiosos e os místicos de relevância deixaram no seu legado a clareza de que o espiritual liga-se, fundamentalmente, à entrega ao contemplativo, e este dá-se no mais tênue silêncio. Aliás, a palavra mistério, experiência primordial do homem diante do Inefável, procede de uma junção com o prefixo grego mys: silêncio, fechar a boca (cf. Santidrián, P. R. Dicionário básico das religiões. Ed. Santuário). Se o mistério é o motor da espiritualidade, o arrematador do humano em busca do divino, então o chamado ao silêncio contemplativo torna-se exigência perene. Nada substitui esse princípio. As experiências de fé de Moisés e Abraão, para citar a tradição judaico-cristã, demonstram isso. Eles tiveram encontros pessoais com Deus retirados do “mundo habitual”. Deus fornece sinais a multidões (como no episódio da saída do Egito e a condução pelo deserto), mas não é de sinais que a fé se alimenta e sim da contemplação primeira, e quem nos diz é a tradição espiritual. Mesmo a Bíblia, por ser antes de tudo um livro de fé, traz inúmeras metáforas e alegorias para traduzir a verdade espiritual oculta em sutilezas encontradas por almas preparadas e dispostas a viver uma espiritualidade concreta. Não terão a contemplação e o silêncio ficado de lado em meio ao turbilhão de barulhos e agitos contemporâneos? Será que as pessoas crentes não devem rever sua postura diante dessa avalanche de códigos acumulados? Trocar a celebração (a célebre-ação) pelo evento religioso puro e simples é inversão de valor, e repensar a atitude de fé é dar um passo além na espiritualidade.

Repito que a intenção não é ofender as religiões, tampouco é ferir a dignidade alheia. Acredito e apoio a iniciativa de promover encontros de fiéis e a congregação entre eles na certeza da crença que os une. O intolerável é a crescente onda de desvalorização da espiritualidade essencial, subvertida por interferências de ordem histriônica e mercadológica, criando um lugar onde a fé é situada numa relação de troca e consumo e não de transcendência e libertação. O objetivo destas linhas é instaurar uma interrogação e despertar uma reflexão, a qual todo cristão deveria realizar, e essa se debruça sobre a necessidade de retirar-se para contemplar. Uma fé madura, solidificada pela espiritualidade fecunda, não depende dos sinais para se manter, e esta é a desejada, inclusive, por Jesus Cristo - basta lembrar o exemplo de Tomé.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Sobre ovos e galinhas: indagações do cotidiano

Artigo publicado no Jornal Gazeta da Cidade, publicação de 02 a 07 de dezembro.

Se você, amigo(a) leitor(a), parar um momento sequer e reparar nas pessoas que estão a sua volta, atitude que dificilmente temos tempo de tomar, poderá notar a falta de adequação parcial ou total à sua própria situação (na maioria escolhida por elas), algo como vestir uma roupa um pouco apertada: possível de usar mas incômoda. Se o reparar for acrescido pelo escutar, vai se surpreender com a quantidade de questionamentos levantados sobre variadas coisas e fatos, de modo desapercebido dos próprios autores das questões. São preliminares constantes e fáceis de notar se uma atenção devida for dirigida ao chamado cotidiano.

Trata-se de uma marca indelével da espécie humana a falta de conformidade com o ambiente, com o pensamento alheio, com a condição dada e vivenciada. Não é de se estranhar a rebeldia de um cérebro resignado a suas idéias implicar, ou mesmo degladiar, com outras mentes que o façam oposição. Assim muitos intelectuais, artistas, escritores, políticos, filósofos e, por que não dizer, jovens e pessoas comuns, por não se acomodarem a uma “roupinha de lã da vovó” (metáfora malfeita para indicar a inércia iluminada de indivíduos deslumbrados com não sei quê), privaram-se do direito de respirarem o ar alienado da preguiça mental e retrucaram com profunda ênfase, através de indagações sobre tudo o que desconfiavam e, com tamanho magnetismo, provocava uma resposta ou pelo menos uma atenção.

Não é à toa ser o cotidiano (algo aparentemente banal e desprezível) a fonte inesgotável de provocações por excelência. É nele que cada indivíduo é afrontado por dúvidas, problemas, desafetos e decepções. E seguramente, também o cotidiano é o palco de alegrias, de momentos inesquecíveis e de experiências únicas e intransponíveis. Portanto, nada melhor do que viver para indagar, e sendo o questionar o motor do homem na busca de dar sentido a sua existência, pode-se até inverter a ordem lógica da sentença: nada melhor do que indagar para viver.

Ocorre, no entanto, um certo descaso por parte de muitos para com questões dessa natureza. Várias pessoas tapadinhas crêem ardentemente na ineficiência do pensar, julgam estupidez o fato de querer desvendar os porquês das coisas e interessam-se por isso somente se for um mote para piadas. A velha e gasta pergunta “Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?” é adotada como estandarte desse grupo de pessoas, distantes de qualquer grau de inteligência. E nem mesmo podem entender se essa pergunta, de modo geral simplista, pode conter no seu “código genético” algo de valor, não observado no humorismo ingênuo e desgastado.

Pensar na qualidade duvidosa dessa pergunta não impede a percepção, por trás da sua fórmula lingüística, de três princípios de especulação: a origem dos seres (preocupação oriunda dos primórdios da história), a ordem de sua aparição e a possível influência de um para o outro, sem falar numa pretensa hierarquia de criaturas. Determinar qual entidade surgiu primeiro é admitir um caminho de compreensão da realidade e, sem determinar com exatidão matemática o correto, presumir uma suposição de tal nível é pôr-se numa problemática universal e atemporal. A origem e a classificação dos seres, bem como a significação deles existirem são perguntas e especulações feitas por filósofos desde o surgimento da Filosofia, e essas não abandonaram o filósofo jamais, ainda que algumas delas pareçam resolvidas para sempre.

Talvez não se questione a verdade da maneira ideal (vencendo a aliciação do senso comum). O fato é admitir para si a força do cotidiano como matéria do pensamento, e desejar olhá-lo com curiosidade, sem fazer dele uma banalidade estéril.